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  • Modaparamim

Sobre textos e têxteis




"Renata, vamos comprar as fazendas do mês?!" Era assim que minha mãe se referia ao nosso dever de escolher tecidos para criarmos as roupas que Lêda nos costurava em um ritual musical/temporal que jamais sairá da minha memória. O dia começava cedo. Antes do café, cortavam-se todos os pedaços de manga, gola, cós, lapela, revel... Dez metros de "fazenda" nos rendiam umas 14 peças de roupa em 8 horas. Eu achava tudo aquilo incrível. Ficava ao pé da mesa de corte (leia-se a nossa mesa de jantar), atenta e fascinada pelos restos que caiam no chão.


Recolhia, enlaçava, arrematava, fazia nós, emendava, esperava. Amarrava nas bonecas. Aquela foi a minha melhor escola sobre as cores e seus tons. "Já está pronto, Ledinha?!" A roupa nova era quase como um milagre, um tesouro tecido pelo corpo em trabalho, moldado por elásticos, jogos de matizes e botões que dançavam na caixinha azul de castanhas importadas. Era o melhor dia do mês.


Naquelas fazendas me criei, cada uma possuía um cheiro diferente, uma textura peculiar que me fazia viajar e sonhar com minhas meninices. As peças de roupa eram meus dotes, antes mesmo de ler Stallybrass em "O casaco de Marx".


Hoje compreendo que fazenda, tecido, roupa, feitio, bordado, sempre foram metáforas, trampolins para texto. O avesso e sua imperfeição cambaleante travestida de verdade sempre me encantaram. Nesses corpos tortos que se faziam, eu costurava a minha letra.


O que nos liga ao nosso desejo é uma linha tênue, invisível, fina, transparente até. Essa mesma linha é, ao mesmo tempo, água, campo de fertilidade e palco de vôo. Toda grande vontade esconde um estranho medo?


Há momentos em que é preciso lançar-se no vazio secretando das entranhas o fiapo que nos sustenta. Li, com Ana Maria Machado e com o conto de Rumpelstiltskin, que os tempos e os causos sempre mudam mas é preciso nunca se parar de fiar para viver. Ouro, linho, rami, pão. A palavra "exata" é uma construção diária, a proteção da cria se dá pela ação, no fazer contínuo do tear que nos atravessa. Recordo que no inglês, "tear" também é lágrima, a verdade é que todo "têxtil" é "texto" que escorre na pele crua.


E pela simples razão de que tudo depende e merece, lembremos de Gil:


"A aranha vive do que tece

vê se não esquece"


Herdeiras de Ananse, Aracne, Ariadne. A gente trabalha com roupas para tocar o corpo, sentir seus efeitos e afetos, bordeá-lo de escrita e trama, ou-rela de narrativa viva. Espaço de liberdade e resistência. Re-tecendo. Re-escrevendo. Todo texto é um tecido e o tempo do plantio é sempre longo. Você sossega se eu te disser que a colheita é apenas um instante?


Fortaleza, 16 de Agosto de 2020.

Renata Santiago

21:20

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