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Moda e morte: casamento da raposa





Moda: uma maneira de driblar a morte? Há um tempo venho pensando sobre a dificuldade que temos em lidar com a impermanência x a necessidade que possuímos de concretizar em formas a metáfora de nossos desejos, transitórios ou não...


O vestir, esse ritual identitário comum a todos os seres falantes, armazena a marca de como colocamos o corpo em caminhada na(s) cidade(s) que habitamo(s). Quais segredos e amores guardamos dos cheiros e medos que nos atravessam? Em eterno retorno, a roupa emerge como capa protetora e superfície propícia a riscos e contaminações diversas. Como sempre, as ambivalências, moda e morte, mais uma, ou o cerne da questão? A lógica das tendências ainda se sustenta como/com a epidemia de um vírus que escancara o real dia após dia?


O poder da imagem en-car-nada: a verdade transposta numa forma que surpreende quando comparada com a realidade. Momento fugaz de surpresa, casamento da raposa. Driblar a morte pela moda, viver decifrando escritas efêmeras, apaixonadamente, em um labirinto de in-tenções e formas? Em Photomaton, Herberto Helder nos fala que a pouca importância concedida à duração dos materiais, a própria flexibilidade, versatilidade e inconstância das modas e estilos estão imbuídas de um pensamento ou percepção da morte: "Tecidos, joias, perfumes, tapeçarias, cerâmicas, vidros, esmaltes, cartazes, quadros, madeiras, esculturas, convergem todos na tarefa de efetivar, no cotidiano, o mito reelaborado de Eros".


Aqui estou, rabiscando ao vento o inanimado das linhas que se desenham em mim. Corro para os livros e a calçada do mundo (*varanda*), escuto outro sussurro de Herberto: "E encaminhar o estrangeiro visitador por corredores e quartos até onde possa, com os dedos grandes e fortes, meter-se pela massa viva do coração dentro. (...) E que então não deixasse dormir o mundo".


Fujo do papel, nem sei bem quando elas vão sair, tento seguir o fluxo das águas. Mas há o limite. Volto para o desenho do corpo. Tramo. Beber do chão toda a cor-agem e a fortuna apenas de um tesouro criado pela solidão.





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