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Manifesto pelos novos rumos da moda: consumo, tendência e sustentabilidade



Oi, pessoal! 2020. 2 + 2 = 4. Ano do sol. Ano de saturno. Ano de revolução. De dor, incerteza, caminhada para habitar um novo mundo que já chegou. Hoje completo 42 dias de quarentena. Em casa, na casca, no corpo, na carne.

Abril de 2020. 12 anos de Modaparamim. Hora de re(nascer) também pelas palavras, banhar no propósito inicial, aterrar o centro, fecundar semente.

Compartilho abaixo um manifesto escrito por mim nesses 42 dias. Eles refletem e sintetizam aulas, ideias, pesquisas, visões, entrevistas, conversas sobre os novos rumos da moda acerca do consumo, tendências de mercado e produtos, como construir e praticar uma moda ética, sustentável e responsável.

É uma criação ativa, sincera, realista e amorosa. É uma afirmação do potencial da moda de respirar VIDA. Falando em moda, arte, vida, palavra.. Modaparamim! Todo domingo nos encontraremos aqui, nesse espaço, costurando passado e futuro, estando presente no presente.

01) O enfrentamento do mercado da moda - antes/pós- COVID19.

Moda é ruptura por natureza, age no território sempre inacabado da reinvenção dos comportamentos por meio da expressão nos corpos. Moda é linguagem, vetor de expressão cultural/individual e um sistema extremamente complexo, responsável por grande parte do desenvolvimento da economia de nosso país. Se as roupas nos ajudam a definir quem somos, o que queremos sustentar e sentir nesse momento?


Pensando no impacto gerado pelo COVID19 na economia, observamos sim que a moda é um dos setores mais afetados. Nos deparamos com consequências graves para toda a cadeia, a indústria da moda gerava US$ 2,5 trilhões em receitas anuais globais antes da pandemia. Um dado importante é que 80% dos trabalhadores da indústria da moda são mulheres. Somos a segunda que mais emprega e gera riqueza, a que mais empodera e emprega mulheres, e também somos a segunda indústria mais nociva ao meio ambiente. Respiramos contradição e ambiguidade, características que estão na definição de nossa profissão.

Nesse momento, nos deparamos com consequências graves para toda a cadeia: desemprego ou dificuldades financeiras – desde os profissionais que colhem as fibras usadas para fabricar têxteis até os vendedores de lojas do produto final de varejo. Infelizmente, é nos países em desenvolvimento, onde os sistemas de saúde geralmente são inadequados e a pobreza é abundante, que as pessoas serão mais atingidas. Para os trabalhadores em centros de fornecimento de baixo custo e fabricação de moda, como Bangladesh, Índia, Camboja, Honduras e Etiópia, períodos prolongados de desemprego trarão fome e doenças. Há tempos o sistema da moda é responsável por esgotamentos naturais, exploração do trabalho, por mecanismos que promovem desigualdades, constrangimentos e imposições alienantes.


Porém, também observamos que se existe algum setor capaz de se refazer, de se reinventar, esse setor é a moda. É nosso dever imaginar o que ainda não existe, ressignificar a perda em prol de transformações necessárias. Maternalmente, o mercado de moda precisa dar exemplo, mudar o modelo de negócios, isso deve acontecer na gestão das narrativas, no design dos produtos, nos serviços oferecidos. Vamos conversar melhor sobre como?!


Nesse momento e daqui para frente, o foco deixa de ser o lucro e passa a ser a sobrevivência, Quem faz moda gosta de contar história, que saibamos falar com mais verdade, transparência e colaboração. Percebo que as marcas que se encontram perdidas nesse momento são justamente as marcas que não possuem um propósito bem definido pautado no desenvolvimento sustentável em suas diversas esferas: ambiental, econômica, social, cultural e política.

02) Tendências de consumo

O COVID-19 expôs ainda mais as profundas desigualdades em nossos sistemas sociais e econômicos e expôs o impacto da atividade humana no planeta. Não é novidade, os fatos históricos nos mostram que toda pandemia acelera mudanças já em curso na sociedade.

Os nossos hábitos de consumo já estão sendo alterados, percebemos, por exemplo, que não precisamos de tanto e que muitos de nossos deslocamentos, compromissos, reuniões e gastos são totalmente desnecessários. Precisamos mudar definitivamente a nossa maneira de viver e de consumir.


O que é felicidade? Harmonia, saúde, paz ou idolatria de bens supérfluos? Há uma possibilidade de nos voltarmos ao consumo de bens essenciais e que tragam narrativas verdadeiras e genuínas. Espero que as pessoas se conscientizem que o consumo precisa estar atrelado a um desenvolvimento sustentável (e urgente!), vejo o consumidor refletindo cuidadosamente sobre onde investir o seu dinheiro.


Não podemos esquecer que boa parte das famílias tiveram suas rendas reduzidas de forma considerável. Os novos hábitos de consumo devem girar em torno do localismo, da sustentabilidade e do autocuidado.


Acredito que uma parte dos consumidores pode até aderir a rompantes de momentos no estilo “buying revenge” que aconteceu na China. Ou seja, correr para as lojas preferidas e comprar (muitos!) produtos (desnecessários). Sem dúvidas, esse fato deixou muitos dos lojistas otimistas e animados. Porém, creio que a maior parte da população não terá condições financeiras ou éticas (e emocionais) de bancar esse tipo de ação.


Acredito no design atemporal e no declínio do atacado e do sistema de produção baseado no fast-fashion. Chega de estoques abarrotados, remarcações e propagandas enganosas. Espero que a gente vivencie um momento de colaboração dentro do setor – principalmente entre empresas supostamente “concorrentes”. Caberá aos consumidores exigir e apoiar todas essas mudanças que já estão em curso.

03) Tendências de produtos

É preciso produzir menos. É interessante observar que uma pesquisa realizada apontou que 56% dos consumidores afirmam que o principal motivo para comprar roupas durante a crise foram as promoções especiais. A pandemia trará valores em torno da sustentabilidade, intensificando as discussões e polarizando ainda mais as visões sobre materialismo, excesso de consumo e práticas comerciais irresponsáveis.

Já vínhamos exaustos de uma pressa sem fim e o nosso conceito de bem estar está em questão. O consumo estará cada vez mais ligado ao desenvolvimento pessoal e responsabilidade social. Consumirei aquilo que me trará mais conforto e saúde, emocional e física. Queremos proteção, produtos que nos blindem de toda a ansiedade gerada pela incerteza.

O lado bom do que estamos vivendo é que, de uma vez por todas, produtos naturais, orgânicos e sustentáveis, holisticamente falando, terão mais espaço. Já estamos praticando e enxergando no mercado uma relação muito mais igual entre preço e durabilidade. Observo dois caminhos com relação ao design dos produtos: uma esfera mais minimalista com foco em cores neutras, poucos detalhes e materiais naturais e uma esfera mais maximalista, lúdica, excêntrica, com cores vibrantes e estética futurista. Seja como for, queremos produtos que pensem a roupa como casa e o lar como corpo.

De um lado as manualidades e artesanias ancestrais, do outro, mas não do lado oposto, a tecnologia e a ciência unidas pela criação de uma roupa viva e que proteja ativamente nossa pele. Para além das micro tendências, aposto em um cenário onde a prioridade seja o foco no autoconhecimento, na essência, no estilo pessoal, na diversidade de corpos, crenças e na quebra de padrões.

04) A digitalização das marcas e a moda local/autoral


Uma das primeiras e principais ações das marcas precisa ser a digitalização de seus processos e serviços. A comunicação precisa ser simplificada, os processos de venda fáceis e ágeis, sem ruídos ou excessos. Os pequenos empreendedores precisam investir cada vez mais no marketing, no capital humano e na qualidade em detrimento da quantidade. As redes sociais viram o novo SAC, o instagram a nova vitrine, o whatsapp vira provador. Ou seja, a reflexão principal é imaginar como trazer a experiência física para o virtual em um contexto de unificação de canais, o chamado omnichanel. Acredito que viveremos um momento de grande apoio e incentivo ao pequeno negócio.

Os empreendedores de moda autoral já praticam uma economia mais consciente, compartilhada, criativa, afetiva, colaborativa. É preciso flexibilidade, resiliência, adaptabilidade. É preciso ser útil, servir, ser ainda mais criterioso com os detalhes, fazer menos mas melhor.

05) Moda e sustentabilidade

A sustentabilidade, ou seja, relação de troca justa, ética, responsável precisa ser encarada não como algo que tenderá a ser ou como uma utopia. Precisamos ser o mais sustentável que conseguimos ser em nossos processos, produtos, serviços. Ser sustentável significa cuidar das coisas e das pessoas, respeitar o tempo e a natureza, o processo criativo e suas idas e vindas.


A sustentabilidade precisa ser encarada como uma cultura de gestão inovadora e estratégica. Se levarmos a sério nossos aprendizados coletivos da atual crise, a pandemia representará uma ruptura com um modo de viver, e inaugurará uma nova era pautada na solidariedade, na empatia, na colaboração e interdependência. Uma coisa é certa: vai ser preciso bem mais para se justificar uma compra.


Precisamos de designers autores!

A moda deve colaborar ativamente com a difusão e a conscientização sobre a sustentabilidade e as demandas do planeta. Devemos nos apoderar e exercitar em nossas marcas a capacidade de utilizar o conceito do #CreativeWaste, aprendendo a lidar com as sobras e os restos. Não desperdiçar matéria-prima ou gerar estoque desnecessário. É preciso reduzir e desacelerar! Apenas faça menos: compre menos, consuma menos, produza menos. Os recursos artísticos, a cultura, a economia circular e o upcycling serão pontos de ação importantes nos novos tempos.



(Criação de Richard Malone)

A crise é uma ruptura, abertura para novos mundos e a moda, mais do que nunca, precisará de substância. A ética precisa estar alinhada com a estética, com coerência e congruência.

Chegou a hora de um novo contrato social e ambiental. Temos uma oportunidade única de reconstruir o sistema com base no respeito, dignidade, no afeto e responsabilidade pessoal. Com uma mudança de perspectiva, as possibilidades são infinitas. Não precisamos temer o futuro, imaginar o que não existe é o nosso dever!


Ser designer é resolver problemas, por isso é importante compartilhar todas as soluções que encontramos pelo caminho.


Vamos juntas?


06) Quais as palavras-chave para o momento presente e os novos rumos da moda?


Compartilhar, servir, conhecer, confiar, comunicar, reaproveitar, simplicidade, menos coisas, menos dinheiro, mais experiência, mais verdade, mais afeto.


Estas são as minhas. Escreve nos comentários quais são as suas!

Renata Santiago

Fortaleza, 26 de abril de 2020.

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