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  • Modaparamim

Dos tempos que atravessam a moda



(Salvador Dali - 1969 - Alice)


Pensar a moda e o tempo presente significa tencionar sazonalidade, rapidez e efemeridade com perenidade, calma e ancestralidade. A moda é a própria impermanência e a arte de se fazer moda é um processo que coincide temporalmente com a vida do ARTilista (neologismo carinhosamente construído a partir da fusão dos significantes artista + estilista). Roupas são mundos, territórios que possuem espaço e tempo como tessitura subjetiva. A linha que costura é a memória.


Em um de seus textos sobre o contemporâneo, Kátia Castilho menciona que a moda faz circular o sistema de valores partilhado pela sociedade a qual pertence. Simmel (1858-1918) nos alertava em suas teorizações sobre a modernidade que a moda revela as verdadeiras estruturas da sociedade: "a violência dos movimentos por meio dos quais o corpo social se compõe e se recompõe". O autor teceu um importante estudo sobre a sociologia das tendências e suas lógicas pautadas na corrida pela imitação e do quanto as mudanças rápidas na moda causam a necessidade mercadológica de uma profusão de produtos baratos da mesma espécie.


Já Lipovetsky nos fala que com a moda, aparece uma primeira manifestação de uma relação social que encarna um novo tempo legítimo e uma nova paixão própria ao Ocidente, a do "moderno". O amor pela novidade (neomania) torna-se fonte de valor mundano, marca de excelência social, impondo o presente como o eixo temporal que rege uma face superficial mas prestigiosa da vida das elites.


Desde os anos 1960, presenciamos mais rapidamente (fast fast fast) a ruptura com o modo antigo em proveito de uma moda cada vez mais destituída de significado e trasnsformação social. Com exceção dos hippies, do movimento punk e do rap, a vitória das tendências está marcada pela progressiva despolitização dos movimentos de moda. "As modas" foram progressivamente perdendo seu significado ideológico, elas se tornaram uma indústria fria e codificada por narrativas vazias, um verdadeiro desserviço. Pergunto: O que (de novo) queremos agora?

Em tempos (saturninos) de pandemia, revisamos exaustivamente os valores e a veracidade das realidades que nos habitam. Enquanto sentimos profundamente o sabor da morte nos rondando, o peso da sucessão inexorável dos fatos e uma nauseante confusão temporal em plena terça-feira, nos questionamos sobre quais as causas que são legítimas. O tempo como fluxo e devir cambaleia nossos sentidos, apontando para uma sequência não-linear, alinhavada por dobras e fendas cairológicas proporcionadas pelo avivamento da memória.



(Salvador Dali - 1969 - Alice)


A memória, menina que brinca na correnteza, pescando os peixinhos que passam, saltita enquanto o corpo está "parado". A memória é sempre teimosia, pele, película invisível que se colore pelos sentidos, "são os sentidos que carregam os molhos de chaves que dão acesso à memória", como diz o poeta Geraldo Carneiro:.

Desejamos que os desafios desse momento tão delicado e doloroso nos inspire a encontrar novas formas de trabalhar e de enxergar o trabalho como potência de vida e não de sujeição/empobrecimento/adoecimento de nossa energia! Que saibamos delimitar os limites que confiram respeito a um ritmo qualitativo e prazeroso, pautados pela memória e a autoralidade, capacidade de criar ativando a cultura. Comecemos erradicando qualquer forma de escravidão dos corpos, seja por péssimas condições de trabalho, seja por padronização de estilos e pessoas.


Com o silêncio, tudo fica mais alto. Estar "parado", readaptar rotinas e continuar trabalhando (muito!) nos convoca a uma nova perspectiva sobre o corpo e nossas memórias. Desalienar, descolonizar, descrer na realidade convencional encarando outras lógicas de espaço e tempo. Irrompendo, o tempo da diferença causa uma ruptura na própria ordem.


Em seu trabalho, o designer de moda condensa temporalidades, rede de afetos pessoais e coletivos. Reflete sobre o que nunca foi, lança apostas de futuro, tentando enxergá-lo e traduzi-lo. O que é de certa forma, inventá-lo.


Desacelerar pressupõe criar a partir de uma escuta atenta e paciente ao estranhamento das misturas que habito. Ser uma criança que joga e aposta em sua própria sequência. O papel da moda (enlaçada com a arte), ou melhor, ser ARTilista, é construir abrigos para novas realidades, criar territórios e convidar um povo para habitá-lo. O desejo tem mil tempos, sejamos gentis com ele.


Renata Santiago

Fortaleza, 02 de maio de 2020. 12:45


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