terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Softness: consciência e esperança para o sujeito-moda?


(Dior, Paris - Alta Costura - Verão 2017) 

Macrotendências para a moda são apontamentos, estudos comportamentais que envolvem profissionais de áreas e pensamentos diversos que juntos pensam, repensam e incorporam valores sociológicos, econômicos, filosóficos, culturais, políticos e etc. a fim de esboçar uma tentativa de traçar um caminho, uma estrada a seguir revelada morfologicamente por meio de conceitos, cores, texturas, formas e ilustrações. Vale ressaltar nesse momento o império do vestuário que se constitui como meio para o exercício da moda, esta atuando sempre no campo do imaginário, dos significantes; é parte integrante da cultura e da arte. 

Eis a mágica do vestir: campo privilegiado da experiência estética, permitindo na apropriação dos objetos tecidos, projetados e  imaginados nas tramas e cores, o contato com uma profusão de signos que operam a subjetividade de cada sujeito, dia após dia. Sabendo ou não. Querendo ou não. 

A pantone, por exemplo, é uma empresa norte-americana que gera sistema de cores para a indústria da moda e do design a cada estação.  A WGSN, empresa referência de pesquisa de tendências, gera anualmente os seus guias de "modos a seguir". O bureaux apontou para 2017 as seguintes referências: Elemental, Artisan, Remaster, Off Beat. Para 2018: Vida terrena, Design Substancial, Noturno e Infusão. Todas falam basicamente da necessária ligação do homem com o espiritual e o natural, seja ela como for: de forma etérea, mística, selvagem, lúdica, surreal. Fala da ligação (leia-se fusão) do homem com a tecnologia: seus desafios, distanciamentos e agenciamentos. Como me situar no tempo e no espaço? Como distinguir a minha alteridade refletida nos objetos de consumo? Como ser um sujeito-moda congruente e decente? Sujeito-moda: ansioso pelo novo, efêmero, sujeito que vive no sistema-moda consumado, variável, fantasioso, ser do parecer regido por relações de poder. 

Como os divergentes encontram possibilidade de complementação na sociedade de moda?

Geertz nos fala sobre a noção de ethos (pertinente nessa costura escrita) como uma postura na qual se constitui uma visão de mundo. "O ethos de um povo é o tom, o caráter e a qualidade de sua vida, seu estilo moral e estético e sua disposição, é a atitude subjacente em relação a ele mesmo e ao seu mundo que a vida reflete". (p.142 - In: 

Dessa forma, podemos pensar a moda assim como Sant´Anna (In: Teoria de Moda: sociedade, imagem e consumo) como sendo o:

ethos das sociedades modernas e individualistas, que, constituído em significante, articula as relações entre os sujeitos sociais a partir da aparência e instaura o novo como categoria de hierarquização dos significados. 

Para 2017, a Pantone ditou que o verde Greenery (mistura de verde musgo com amarelo intenso) será a cor do ano. 

"Sabemos o tipo de mundo que estamos vivendo, que é muito estressante e muito tenso", disse Leatrice Eiseman, diretora executiva do Pantone Color Institute. "Esta é a cor da esperança e da nossa ligação com a natureza. Ele remete ao que chamamos de palavras 're': regenerar, refrescar, revitalizar, renovar. Toda primavera entramos em um novo ciclo. É algo como olhar para a frente". 



Essa semana prestigiamos a semana de alta costura em Paris em um contexto forte de incertezas, crise de  valores institucionais, retrocessos políticos, negação aos valores humanos básicos. Observamos na Dior e na Chanel um resgate à esperança presente nos arquétipos do natural, da criação original. Observamos consciência e delicadeza: suavidade presente nos elementos de cena, sons, cheiros, locações e nas tramas não tanto escondidas. Famílias de cores suaves e opacas se misturam aos brilhos e contrastes. 

(Chanel) 

Alta Costura - Verão 2017 foto: FOTOSITE

(Dior) 

De Chanel (e como Coco foi citada nesse espetáculo) herdamos a funcionalidade milimetricamente calculada, o perfeccionismo esboçada no seu estilo clássico e minimalista. Herdamos a mulher forte e futurista, para além de seu tempo. De Dior ficamos com o luxo, o resgate ao direito da feminilidade e da natureza lúdica e selvagem. Herdamos o gosto pelos ornamentos e proporções. 

De resto, aliás, não seria verdade que quando o homem quer fazer uma revolução, ou melhor, quando decide mudar as condições de seu mal-estar, deve necessariamente dar início às mudanças na esfera cultural, operando nas escolas, nas universidades, na cultura, na arte e, em tempos mais gerais, em tudo aquilo que diz respeito à criatividade? A mudança deve ter início no modo de pensar, e só a partir desse momento, desse momento de liberdade, será possível pensar em mudar o resto. (Joseph Beuys)



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