terça-feira, 11 de junho de 2013

Mais abstração e menos figuração: o meu tesouro pessoal.


Nenhuma borda exclui a passada, nenhuma linha está isenta do conjunto de pontos. Assim é na vida, assim é na arte. O efeito borboleta se confirma a cada dia. Tudo que vivemos e experimentamos deve assim ser ligado, interligado, re-ligado... transformado em reflexão, compreensão. Nenhum fato é isolado, nenhuma luta é fácil. 

A busca do estilo, da personalidade e do traço único devem ser buscados incessantemente. Apenas os seus gostos e características únicas te nortearão nessa jornada. Trabalhar para conhecê-los é lei. Trabalhar para expressá-los é a salvação. Porque é apenas na capacidade de exercer a complexidade da criatividade que podemos nos diferenciar. É justamente a diferenciação que nos confere o poder de ser e não apenas parecer. 

 E criar é justamente isso: integrar significados, estabelecer relações, conhecer e dar voz aos sentimentos interiores mais escondidos. Tudo isso porque encontrei essa ilustração dentro do meu baú de tesouro pessoal, aquele local em que mora a nossa identidade. Aquele local em que toda ação pode (e deve) ser transformada em reflexão, compreensão. Aquele em que em que (me) encontro Guernica, Dali, Nietzsche. Aquele em que (me) encontro Chico, Kings, Aldemir Martins. Aquele em que (me) encontro mais abstração e menos figuração.

Aquele em que encontro o pé de Jambo, as caixas de papelão com roupas de bonecas, os castigos impostos por mim mesma. Aquele em que encontro as complexas e ambíguas figuras maternas. E paternas. Aquele em que encontro a falta e a danação. Aquele em que encontro as Clarices, Nayanas, Marianas e Giovannas. Aquele em que encontro os desenhos na areia: os do final da tarde sempre eram mais especiais do que os da manhã. Aquele em que encontro meus espelhos de alma: meus irmãos.

Aquele em que encontro o veto, a rebeldia, o medo e a liberdade na solidão. A busca que nem a morte será capaz de encerrar. Aquele em que (me) encontro rabiscos divididos em tantos retalhos empilhados por formas geométricas e cores austeras diversas. Porque no fundo do baú sempre guardei a certeza de que era somente na arte de criar (fosse textos, desenhos ou objetos) que me estruturaria. A certeza de que os medos escondem os tesouros. Porque lá está escrito em letras reforçadas para que eu nunca esqueça: "Ou faço arte, ou morro..."

Renata Santiago 

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