quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Blindness


Hoje vi um cego, na verdade acabei de vê-lo. Não aquele cego de Clarice, mascando chicletes, despreocupado, sublime e feliz da vida. Ele não parecia ter saído de Laços de Família, mas me provocou aquela tensão.

Ele era jovem e corria. Corria na medida que podia, com a sua bengala e os seus óculos escuros. Ele corria procurando o (seu) ônibus que no meio da rua estava, longe do ponto em que deveria estar, há uns cinco metros pelo menos. Como ele sabia ser aquele o certo? Pelo barulho? Pelo cheiro? Alguém o avisou? Alguém iria ajudá-lo? Quem tem boca vai a Roma?

Ele corria e eu não paro de pensar nisso. Ele corria tentando tatear com as mãos o que vinha na frente. Ele corria sem medo, mas assustado. Corria com coragem, corria como quem tinha que pegar aquele ônibus, custe o que custar.

Pude observar que o ônibus estava lotado. Não pude ver como ele subiu, pois como sempre estávamos todos apressados e eu não podia atrapalhar o trânsito para acompanhar a aventura por completo.

Eu pensava na vida, no meu suposto sono, na apresentação da Raquel, no quê postar hoje no blog. E no que ele pensava?

Na verdade acho que ele agia. Agia assim mesmo, sem pensar, no fogo. Ele não tinha tempo para pensar. Ou tinha?

"Não seja cego". "O pior cego é aquele que não quer ver". "Quem tem olho em terra de cego, deve estar beirando a loucura." "Em terra de cego quem tem um olho é rei." "O amor é cego.""Olho por olho, e o mundo acabará cego."

Quantos dizeres existem, quantos eu já falei. Mas não conheço e nem nunca tive a oportunidade de conversar com nenhum. Fico curiosa para saber como deve ser a sua intuição, o seu distinguir o seco do molhado. Em vez de olhar nos olhos, aonde que eles olham? Devem carregar um imenso poder.

Tudo isso para dizer que quantos vivem a vida olhando para o lado e não para frente ou para dentro? Ou quantos vivem sem assumir a responsabilidade da suas capacidades? Quantos assumem as suas falhas? Ou quantos procurando coisas e outros em vez de a si mesmo? E o vazio só aumenta. E por aí vai.

Nelson (Rodrigues) tem mesmo razão: jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. O ser humano costuma sempre ser cego para os próprios defeitos.

É lema: a vida só vale a pena quando vivida nos mínimos detalhes. Sem desleixo, sem desculpas, sem falsas aparências, sem medo de sair do conforto.

É verdade: cego mesmo é aquele que não consegue enxergar o mundo, o outro e a si mesmo com o que tem no coração. Cego mesmo é quem só quer ver e não sentir. Cego, para mim, é quem se deixa levar e acaba fatalmente sendo engolido pelas loucuras do cotidiano.

RS.

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Um comentário:

Clarice disse...

Adorei o texto, prima! Muito boa sua reflexão!