terça-feira, 9 de novembro de 2010

Psicanálise às 18:15








(...)

Até então, acreditava ter chegado à análise por caminhos sinuosos, certamente, mas penetráveis - e esclarecia: "lógicos". Pois bem, agora se descobria plantado no meio de um dispositivo profundamente absurdo: estava perplexo com aquele divã, com sua própria posição, com a presença invasiva que sentia atrás de si. "Nada mais faz sentido". O absurdo estava ali: uma singularidade absoluta e rídicula, "nada mais faz sentido", e angustiante também. Sua interrogação se afigurava aparentemente modesta: "Que estou fazendo aqui?" (..) Dizia: "Isso estoura, não como uma bomba, mas como uma bolha de sabão."

(...)

O ser falante se deita em ocasiões que são sempre significativas de seu desejo: morrer, dormir, sonhar, talvez... Acrescentemos a psicanálise. Hamlet perambulava com um crânio. Adrien queria arranhar a carne obscena que o vestia. Horror insuportável: retirar uma máscara, um véu, que piada! Arrancar a pele dá uma idéia do que pode ser a verdadeira nudez, o puro desvelamento do ser. Ele se recompôs ligeiramente: "Veja só para onde a análise me levou, para esse voyeurismo tão infame quanto impossível".

É, para onde a psicanálise leva o sujeito? (..) Para o fato de que, por sisó, a vida é desprovida de significação, de que não passa de um desvio - a palavra é de Freud - obstinado, transitório e caduco - os adjetivos, de Lacan. Claro, alguma coisa insiste nela, algo a que, apressados, chamamos sentido, ou seja, o surgimento de um pouco de ordem. Mas, mesmo que a vida insista em entrar nele, esse sentido exprime algo que está além da vida, já que, quando vamos às raízes dessa vida, não encontramos outra coisa senão a vida conjugada com a morte.

(...)

Nada, nada mais: como a maquilagem se desfaz nos rostos em longos riscos negros e sujos, as imagens iam escorrendo ao longo das lembranças, deixando apenas um esqueleto.

(...)

É a prodigiosa ambiguidade do término que, nos dois extremos de uma linha de metrô, faz-nos pensar, conforme o sentido tomado por nosso vagão, que o começo está atrás de nós. (..) "Não cedo a ninguém".

(...)

Lacan narra, em seu Seminário 2, uma história curiosa. A de um homem que entra numa padaria, pede um doce, devolve-o, pede um cálice de licor, bebe-o, quando lhe pedem, em troca, que pague pelo cálice, exclama: "Mas, dei um doce em lugar dele! - Mas, o doce, o senhor tampouco o pagou! - Ainda mais essa.. Porque o teria pago, já que não o comi?"

Cada um de nós se introduziu, um dia, fraudulentamente, na valsa das trocas. Se existe psicanálise, é porque continuamos a pagar pelo cálice de licor que bebemos com o doce que não tínhamos comprado.

----




Demais!




O que vocês leram agora são trechos retirados do texto "Uma bofetada" do livro:

Psicanálise às 18:15
Um testemunho clínico a quatro mãos
Dominique Miller e Gérard Miller

Nenhum comentário: