terça-feira, 23 de novembro de 2010

A moda para mim







Ontem ganhei mais um presente emprestado (daqueles!) da minha orientadora Adriana Leiria. Ele se chama MODOS DE VER A MODA, organizado por Adair Marques Filho, graduado em Design de Moda pela Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás. O livro é um compilado de investigações mais do que interessantes de muitos pesquisadores que procuram mostrar diferentes ângulos de observação da moda.

Tratando de arte, estética, tecnologia, música e muita viagem da boa, o livro realmente me prendeu.

E eu, como não deixo vocês por fora de nada que é bom e quente, resolvi colocar um pouco do artigo ESTÉTICAS DA APARÊNCIA: CRUZAMENTOS ENTRE A MODA E A MÚSICA (escrito por Lorena Pompei Abdala) que descreveu bem direitinho o que representa a moda para mim. Demais!

Você que gosta de pensar a moda através do viés estético, do corpo como objeto manipulável e analisando a constituição do sujeito pós-moderno, fragmentado e dividido entre identificações flutuantes, não pode deixar de ler!


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ESTÉTICAS DA APARÊNCIA: CRUZAMENTOS ENTRE A MODA E A MÚSICA (Lorena Pompei Abdala)



Em maior ou menor grau possuímos objetivações e subjetivações de gosto relacionadas às práticas da aparência ou existência. Todos nós vemos e somos vistos, portanto de uma forma ou de outra é pouco provável um absoluto alheamento de si mesmo e dos outros. Somos artefatos visuais e portanto informações imagéticas.

Negar a estética de si, no sentido foucaultiano, seria negar a própria existência, já que a constituição do Eu está ligado à imagem do próprio corpo. Assim, pensemos em corpos construídos por um discurso, corpos que se projetam pelas experiências estéticas como um meio de comunicação subjetiva com o mundo, corpos percebidos pela poética da obra aberta, que admitem um universo de formas perceptíveis e interpretações plurais que se complementam e geram novas formas de perceptos na pós-modernidade.


Falar sobre as propensões de gosto é um tanto melindroso, pois, se tratam de subjetividades, as quais constroem os arquétipos que por sua vez constituem a condição identitária de cada sujeito. São as práticas da aparência. Por práticas da aparência, "estéticas da existência" ou "tecnologias de si".


Deve-se entender com isso as práticas refletidas e voluntárias através das quais os homens não somente fixam-se regras de conduta, como também procuram se transformar, modificar-se em seu singular e fazer de sua vida uma obra que seja portadora de certos valores estéticos e responda a certos critérios de estilo. (FOUCAULT)



É nesse ponto que a moda, transcende o seu utilitarismo para uma noção de subjetivação estética ou experiência estética. A experiência surge a partir das práticas de si, da colocação e construção imagética dos sujeitos em sociedade, projeção para consigo mesmo e para com os outros na sociedade. Posicionamento identitário legitimado pelas múltiplas dobras e territórios ocupados pelos sujeitos e seus corpos.



Ainda, na fala de Hannah Arendt,

Tudo que existe aparece necessariamente e nada pode aparecer sem ter forma própria: portanto não existe coisa alguma que de certo modo, não transcenda o seu uso funcional; e essa transcendência, sua beleza ou feiúra, corresponde ao seu aparecimento público e ao fato de ser vista.

Aquilo que nós vemos e o que nos olha, é fundamental para a criação subjetiva da identidade, já que construímos o nosso "eu", espelhado no outro, seja para causar aprovação ou o contrário. Esse uso que se faz da moda, como disse Arendt, transcende qualquer utilitarismo.

É claro que seria inevitável falar sobre moda, sem considerar os aspectos da lógica capitalista de consumo, até porque a grande mídia faz, com excelente primazia, com que as grandes massas sintam-se pensando sobre sua colocação visual no mundo, quando na verdade são manobras consumistas das indústrias culturais.



A concepção de mercado da moda e a lógica do consumo contribuíram para a construção de estereótipos pejorativos sobre as instâncias que a moda dinamiza. Neste sentido, preocupar-se com o vestir tornou-se algo ligado á frivolidade, ás práticas menos importantes.



Entretanto, há de se considerar que se por um lado existe uma manipulação mercantilista, "fashionista" (terminologia usada para designar pessoas que gostam de moda, acompanham-na e a consomem, com uma velocidade maior que os outros), existe um outro lado que é a condição humana de criticar e se posicionar diante das coisas, mesmo com as identidades "prêt-á-porter", ainda é possível o engajamento imagético de si, um prazer estético menos contaminado.

A experiência estética não se esgota em um ver cognisctivo e em um reconhecimento perceptivo: o expectador pode ser afetado pelo que se representa, identificar-se com as pessoas em ação, dar assim livre curso às próprias paixões despertadas e sentir-se aliviado por sua descarga prazerosa, como se participasse de uma cura (kathársis). (JAUSS)

(...)

A roupa como projeção ou continuação do corpo é símbolo, é interpretação, é imagem, é ideologia, ontologia, subjetivação. No entato, para a maioria dos sujeitos o vestir tornou-se um ato mecânico, assim como seu pensar e seu agir. Isto é muito mais grave do que se pensa, já que é na postura imagética dos sujeitos que de alguma forma podemos perceber o seu grau de alienação no mundo. Não se trata, aqui, de qualquer referência às noções de gosto e sim das mensagens que os outros passam de si e nós passamos de nós mesmos para o mundo. Posicionamento crítico da imagem pessoal e entendimento crítico das alteridades.



O "estar na moda" se tornou um transe social, adequação a uma estética imposta e não a uma estética refletida. E neste sentido, como se dariam as percepções estéticas no campo da moda na sociedade contemporânea? Como se dariam as relações com os corpos, com as práticas da aparência? Já que a moda é um devir.



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Ufa. A moda é um devir. Existe frase mais linda do que essa?

Um beijo recheado de boas inspirações!

Imagens: Divas! / Reprodução Internet

3 comentários:

tarlis belém disse...

Que dica maravilhosa, vou procurar esse livro! Esse texto aborda um trabalho que estou fazendo, irá me ajudar muito!
:)

Lorena disse...

Oi Renata!

Sou a Lorena Abdala, autora do texto. Estava fazendo uma varredura no Google e vi o seu post (com dois anos de atraso, rs). Fico feliz que o texto tenha sido útil às suas reflexões!

Abraços!

Renata Santiago disse...

Oi Lorena, que legal ter você por aqui. Adorei o seu texto e é um prazer conhecê-la! Volte sempre. Um beijo