quinta-feira, 17 de junho de 2010

Pelo direito do meu falo da fala!




Acordei agora depois de mais de um mês viajando nos trilhos da psicanálise. Há uma semana sonho que estou estudando todos os dias e acordo assustada com o despertador. Hoje enfim apresentei o meu projeto de pesquisa! Lutei para enxugar e resumir o mundo de tramas que a psicanálise aborda. Foi um momento importante, pois tive a certeza mais uma vez que também quero seguir o rumo acadêmico na produção de novos discursos que unam moda e psicologia.

O mais louco dessa aventura foi descobrir que durmo ao lado de um psicanalista hiper ortodoxo e apegado às tradições de sua corrente. Mesmo sendo acusada de dar uma facada nas costas da psicanálise e mais ainda, acusada de ser "cheia de argumentos", continuo na luta pelo chamado "falo da fala" da mulher. E já avisei, é apenas o início.. vamos discutir nos livros!




Vou dividir em 3 posts. Mulheres, leiam e reflitam!


UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ
INSTITUTO DE CULTURA E ARTE – ICA
Curso de Estilismo e Moda


RENATA SANTIAGO FREIRE



O PAPEL DA MODA NO INCONSCIENTE FEMININO



Fortaleza, Junho de 2010.



REFERÊNCIA: Trabalho apresentado ao Curso de Estilismo e Moda, como exigência parcial para a obtenção de nota da disciplina de Pesquisa de Moda I, sob a orientação de conteúdo e orientação metodológica da Professora Dolores Mota.


JUSTIFICATIVA

É inegável que a moda seja um dos tipos de comunicação não-verbal mais fortes e decisivos da atualidade. A sua representação e materialização nada mais é do que o espelho do indivíduo e da sociedade.

A roupa, objeto de estudo da moda e mais ainda, a maneira de vestir essa roupa, representa uma manifestação, uma ligação entre o sujeito e o mundo, podendo revelar e mascarar esse sujeito.

A psicanálise, fundada por Freud no início do séc. XX é uma das poucas disciplinas que se arriscou a teorizar sobre a sexualidade e o complexo desejo feminino.

Desde o primeiro contato, suas idéias e articulações se encaixaram com a minha interpretação do enigma mulher e a minha leitura da moda. Vale ressaltar que a psicanálise enquanto teoria não se apresenta como detentora da resposta da questão feminina.

Qual é a mulher da psicanálise? Como se faz mulher pela moda? Proponho uma complexa interpretação do inconsciente da moda através da formação e subjetividade do seu maior objeto: a mulher.

Falta algo para mulher freudiana: o falo. Inacabada é a mulher de Lacan, não tem significante que a referencie. Assim, procura fatores externos que sustentem o seu frágil ego. A psicanálise não tenta descrever o que é uma mulher, e sim, como ela se forma

Relacionando com a teoria psicanalítica, analiso a moda como um sistema todo poderoso, que exerce tanto a função paterna quanto materna, oferecendo um leque de imitações, leis, regras e autoridades que auxiliam na estabilização da identificação feminina. Diz para a mulher o que tem de ser feito!

O olhar psicanalítico apresenta a moda como uma verdadeira possibilidade ativa e fantasiosa para o sexo sempre considerado fraco e passivo, uma saída para a feminilidade, para a criação de si.

Assim, o vestir feminino nada mais é do que uma maneira de a mulher conhecer e expressar seus desejos, manifestando assim o seu ser no mundo em que vivemos.
O sonho para a psicanálise, é a via régia (o caminho) para o inconsciente. Um verdadeiro objeto! E a moda, o que é, senão uma fábrica criadora de sonhos?

Percorrendo os conceitos psicanalíticos do que é ser mulher: a noção de feminilidade como um conjunto de práticas e discursos elaborados ao longo da história para se definir a mulher e principalmente a definição psicanalítica de falta; abordo a moda como um instrumento que oferece a estabilização parcial da identificação feminina.

Há escassez de pesquisa e material bibliográfico que tratem sobre o tema. Pretendo contribuir para aqueles que se interessam pelo estudo de moda e psicanálise.

Para isso, procuro definir o fenômeno da moda como discurso, situar historicamente o conceito de feminilidade, definir psicanaliticamente conceitos relacionados ao desenvolvimento subjetivo da mulher como o desejo, o narcisismo e as saídas que ela possui para lidar com a sua falta e por fim tentar entender qual o papel da moda no inconsciente feminino.

A cada nova moda, a mulher pode encontrar o seu algo perdido, aliviando de certa forma a sua angústia: uma verdadeira ilusão de completude que preencha o não lugar feminino.


REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

A mulher evoca poeticamente a moda para levá-la ao seu próprio mundo mítico, mundo encantado, onde ela poderá se vislumbrar e se entrever com todas as possibilidades.
Maria José de Souza Coelho


Observo que a mulher é tratada como um ser enigmático e cheio de mistérios pela literatura e discursos sociais elaborados ao longo da história. Vale ressaltar que na maioria das vezes são discursos masculinos que apontam posições e lugares de pertencimento do feminino, influenciados pela estrutura biológica e sócio-cultural, tratado aqui como um conjunto de características comuns às mulheres.



O século XIX foi o momento de consolidação dos valores Iluministas que exaltavam a autonomia e a liberdade individual, dando espaço para que as mulheres, privadas de cultura e educação dignas, pudessem ler, produzir e participar do convívio e das práticas sociais, podendo assim se constituir, pela primeira vez, como um sujeito que constrói o próprio destino e que busca conhecer assim como também realizar os seus desejos. Segundo Kehl (1998), "cada mulher em particular é um sujeito em construção; e a feminilidade, um conjunto de representações que tentam produzir uma identidade entre todas as mulheres, e por isso mesmo não pode dar conta das questões de cada sujeito (p. 141)".

É importante ressaltar que essa mulher é restringida do chamado falo da fala, ou seja, desprovida de educação e cultura por completo. Tudo o que aprendia era subordinado e restrito ás suas atividades de mãe e esposa, figura central do núcleo familiar moderno, responsável pela estrutura e ordem do lar. Assim cita: “e aos pais, maridos e educadores, parece mais conveniente que a mulher se mantenha ignorante, o que equivale no pensamento oitocentista a manter-se inocente sexualmente e maleável socialmente.” (Kehl apud. Stendhal, 1928).

Não existe A Mulher, universal transcendente ao conjunto das mulheres, como não existe O Homem também – mas esta segunda miragem, sustentada pelo significante fálico, parece encontrar uma ressonância imaginária que o conjunto das mulheres nunca será capaz de produzir. (KEHL, 1996, p. 34 e 35)


Porém, mesmo com relativa liberdade de ação e poder sobre a própria vida, essa mulher continua, mesmo agora no séc. XXI, presa de certa forma à sua condição biológica e aos discursos que tentam rotular moralmente a mulher à condição passiva de exercer papéis de mãe, esposa e responsável principal pela ordem e funcionamento do lar. Fazendo com que as mulheres permaneçam e se sintam subjugadas ao desejo ou ao olhar de um Outro. Esse Outro, psicanaliticamente falando, representa o Ideal que você tem de si mesma, a imagem que você tenta projetar e não aquilo que se é de verdade. Provocando assim, uma constante sensação de angústia, culpa e falta. Falta essa de um falo, que preencheria o seu vazio e o seu não lugar.

O falo está diretamente ligado à atividade e ao masculino, fazendo com que seja muitas vezes procurado pelas mulheres no amor, representado como uma forma narcísica de sexualidade, colocando a mulher no centro do olhar do outro. Vale ressaltar que essa falta também pode ser elaborada pelo narcisismo, pela sedução e de forma ativa, pela moda. Questões como qual o apelo da sociedade ás mulheres e quais os conflitos que as mulheres enfrentam ao longo do processo de formação da sua subjetividade são pertinentes.

A vagina não é descoberta, isto é, não há senão um sexo, masculino, onde o pênis é o representante simbólico do falo. Há portanto dois modos de manifestação: a presença ou a ausência do falo. Masculino e feminino evoluem para o conceito de atividade e passividade. (COELHO, 1996, p. 23)


Segundo a psicanálise, homem e mulher possuem desenvolvimentos psíquicos distintos e eles se formam diretamente influenciados pelos seus contextos e enquadramentos sexuais. Em 1914, Freud fala da importância do narcisismo na constituição do sujeito e de acordo com ele, “anatomia é destino”, ou seja, enquanto que para o menino a angústia da castração é suplantada pela certeza de ter o seu falo, no caso o pênis, dando lugar à constituição de um superego dito resolvido e impessoal, para as meninas, o medo da castração é seguido de uma frustração pelo fato de ser de fato castrada, resultando em uma inveja que a acompanha por toda a vida, resultando em um superego frágil, narcísico e necessitado de significantes externos que o referenciem.

Édipo e narcisismo se misturam no desenvolvimento do ser e sua vida psíquica, formando o sujeito. Por vezes dividido haverá uma tendência do sujeito tentar buscar a antiga completude narcísica, buscar um alguém, um olhar, uma palavra, uma situação que lhe evoque o especular olhar materno. (COELHO, 1996, p. 40)


Em primeiro lugar, a minha intenção é a de discutir o desenvolvimento feminino no contexto social e biológico. Para isso, considero importante buscar embasamento teórico na história dos discursos femininos retratados ao longo da história, em sua maioria por autores homens, e principalmente, na psicanálise de Freud e Lacan, que tanto discutiram acerca do enigma mulher. O segundo momento desta pesquisa consiste em conceituar Moda e o seu importante papel ao longo da vida da mulher, se constituindo como um meio fundamental de escolha de significantes e representação diante de si e do mundo. A conclusão a que pretendo chegar é a de que a Moda representa uma verdadeira possibilidade ativa feminina para a feminilidade, já que representa um verdadeiro desdobramento de si mesmo (COELHO, 1996), na medida em que dá a essa mulher, faltosa e carente de significantes internos que a definam, um espaço ou lugar cheio de opções coloridas e fantasiosas que expressam imagens e tipos que a definam enquanto sujeito.



Continua...

Um comentário:

Claudilice Aragão - Design de Jóias e Acessórios disse...

Olá,
Estou pesquisando sobre moda e psicanalise. Gostei de uma imagem, posso colocá-la no meu blog. Vou fazer citação.Vou te seguir.
Obrigada
www.claudilicearagao.blogspot.com