segunda-feira, 21 de junho de 2010

O papel da moda no inconsciente feminino: Parte III

Continuando..

Segundo a psicanálise, as pessoas investem em si seguindo os padrões da moda na busca pelo investimento do Outro. É fato que as insatisfações psicológicas e emocionais atuam como uma estratégia para as manipulações corporais. É através das manipulações corporais que buscamos provocar no Outro os mais diversos tipos de reações. Desejamos, avidamente, através da nossa pulsão escópica (vontade, desejo de olhar e ser visto), um olhar desejante (olhar esse que certifica nossa existência) que "funciona" até como um prolongamento do tato. E é aí que vem a moda, auxiliando o sujeito na realização de suas manipulações. Com o fenômeno da moda, o sujeito estará sempre fazendo um retorno do Édipo ao Narcisismo; do social ao íntimo. É o imaginário atual, o prazer em exibir suas qualidades imaginárias e suas fotos com efeitos em sites diversos: "Sou visto, logo existo"!




(Croquis quentinhos da próxima coleção primavera verão 2011 da Burberry/Releituras da marca com inspiração esportiva em foco)

A pulsão seria aquilo que movimenta o ser humano em direção a algo, na medida em que Freud (1915) a define como “um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, como uma medida da exigência feita à mente no sentido de trabalhar em conseqüência de sua ligação com o corpo.”
Segundo Freud (1905) “a sublimação é um processo que ocorre na libido objetal e consiste no fato de a pulsão se lançar em direção a outra meta, situada em um ponto distante da satisfação sexual; a ênfase recai sobre o afastamento e desvio do que é sexual.”


A moda representa então uma forma de sublimação, auxiliando o Sujeito na realização de suas manipulações a fim de satisfazer as expectativas de realização do seu Eu Ideal. O olhar do outro acaba por dar sentido a nossa existência, fato esse que acaba por provocar uma alienação da mulher que sempre busca corresponder aos ideais difundidos pela última moda. É fato que não é um tecido que está na moda, e sim um tipo de mulher.


Se adequando aos padrões exigidos pela moda, o Sujeito acredita estar sendo aceito pelo Outro, tal fantasia remete ao olhar perdido na infância, fonte de nascimento do desejo, auxiliando assim na manutenção de nosso narcisismo. E mais ainda,
Quais são as conseqüências da mudança excessiva de nossa própria imagem? A cada moda, um novo ideal de imagem é lançado, nos apropriamos dele na esperança de termos a admiração do Outro, porém ignoramos o efeito disso na nossa subjetividade já que a moda é efêmera e logo será substituída por novas demais.


Assim, a necessidade do olhar do outro seria também uma forma de aprisionamento. (COELHO, 1996) Fato esse que apenas provoca frustração.




(Coleção Resort 2011 Givenchy: releituras minimalistas de Frida Kahlo)

A imitação nos proporciona, de pronto, o estí¬mulo de uma efetiva prova de força, na medida em que não exige nenhum esforço criativo e pessoal relevante, e nos é conferida de forma leve e direta a partir do caráter dado do seu conteúdo. Ao mesmo tempo, ela nos dá a tranquilidade de não estarmos sozinhos na ação em questão. (SIMMEL, p. 160)


Acabamos por lidar com identidades mutáveis, fato que aumenta e acelera o processo de angústia, decorrente daquele sentimento de frustração de que nunca estaremos satisfeitos por completo.


Para Lacan, todo aquele que emite um discurso o faz inconscientemente, encaminhando-o a um outro, que Lacan chama de o Grande Outro e que, em rigor, dará o verdadeiro sentido do discurso, de modo tal que o sujeito consciente se vê surpreendido porque sempre diz a mais ou a menos do que pensava e encontra-se com um dito, cujo sentido ele desconhecia, revelando que o inconsciente – estruturado como uma linguagem – contém um saber do qual o sujeito nada sabe. (BAREMBLITT, 1996, p. 70)


Assim, a vontade olhar e de mostrar nada mais são do que representações de pulsões que agem no intuito de preservar o Eu: o narcisismo como preservação do Eu.




(Resort 2011 Proenza Schouler - Mostrando que mesmo de olho neles, queremos manter a nossa cintura em evidência e no lugar)

Chego na conclusão de que se tornar mulher é bem mais penoso do que se tornar homem segundo a teoria psicanalítica. A mesma feminilidade, retratada como uma saída e uma resposta para o desenvolvimento sexual e psíquico feminino, carrega consigo paradoxos e incoerências quando pensamos no contexto cultural e social a que as idéias da psicanálise foram criadas. Assim, o significante para O Homem não é o pênis, é o Verbo. Se as mulheres também manejam o “falo da fala”, podem se deslocar da dívida infantil com um pedaço de carne a mais ou a menos no corpo (KEHL, 1998)
Sem tantas possibilidades identificatórias, menos pela falta de motivos biologicos e mais pela falta do chamado “falo da fala”, acredito eu, o lugar do ser feminino acabou por ser moldado e construído pelos discursos de homens que não possuem a sensibilidade, a coragem ou quem sabe o domínio da experiência a fim de categorizar acerca do desejo ou das saídas femininas.



Desconfio do fato de que a mulher apenas queira ser o desejo de um outro. Será mesmo que o inacabado e frágil superego feminino, resultado, segundo a psicanálise, do processo mal resolvido da castração e da falta do falo feminino é o resultado de uma falta biológica ou social e cultural? Assim sendo, cabe as mulheres a luta diária pela posse e conhecimento de seus desejos a fim de se tornar sujeito de sua existência.



Sendo difusa a sexualidade feminina, apreciamos a cada tempo a exposição de alguma parte do corpo, parte esta eleita denunciando a erotização demandada da estação. O corpo feminino passa a ser uma tela de projeção da história de uma civilização. (COELHO, 1996, p. 57)




(Resort 2011 Louis Vuitton - O estilo Lady like da marca veio com referências mais modernas e austeras - Eu aprovei!)

A moda, analisada pelo viés psicanalítico, surge como uma verdadeiro meio de se tornar mulher no contexto contemporâneo, já que através de uma posição tanto materna quanto paterna, oferece à mulher estilos a que ela imitar, regras a que ela tenha de seguir e uma autoridade refletida em padrões estéticos a que ela deva seguir: cuida, protege e veste a filha prazerosamente, sendo assim uma forma de estruturar seu ego, num jogo de sedução onde será sempre matida ativa a esperança (COELHO). Assim, a moda se constiui num meio ativo de se fazer mulher, pois se fundamenta em escolhas e rejeições que auxiliam na estabilização parcial da identificação feminina. Por fim, se o falo do homem se resume a um órgão, o falo da mulher não seria ela mesma?




ok, the game its over!

Beijos!

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