domingo, 20 de junho de 2010

O papel da moda no inconsciente feminino: Parte II



(A segunda parte do Projeto de Pesquisa ilustrada pela imagem da mulher hiper femme fatale de Roberto Cavalli 2010)


A moda assim como a psicanálise, representa um campo do saber, já que estamos tratando de fenômenos sociais típicos da modernidade em que seus estudos informam sobre os indivíduos e o imaginário da sociedade contemporânea. Ambas são influenciadas pela cultura e história de uma época e, funcionam através da compreensão e análise do homem, visto aqui como um sujeito dotado de instâncias e motivações mentais, como o inconsciente.


De acordo com sua natureza peculiar, a psicanálise não tenta descrever o que é uma mulher – seria esta uma tarefa difícil de cumprir – mas se empenha em indagar como é que uma mulher se forma, como a mulher se desenvolve desde a criança dotada de disposição bissexual. (Freud, 1933: 144)


Podemos pensar a moda como uma possibilidade de posicionamento crítico na medida em que o que escolho para vestir representa de alguma maneira a minha visão do mundo, de mim mesmo e do Outro. A moda também representa um sistema estruturado onde dimensões como o econômico, o social e o cultural se fundem, dando origem a tendências ou produtos influenciados e ditados por esse sistema comercial e lucrativo que tem no vestuário, seu arquétipo, sua mais forte representação material. Segundo Barthes, a moda reproduz no nível da indumentária, a situação mítica, a imagem da mulher em determinada época.




Os traços mundanos são infinitos (sem limites precisos), inumeráveis e abstratos; as classes do mundo e da Moda são imateriais; a do vestuário, ao contrário, é constituída por uma coleção finita de objetos materiais; portanto, é inevitável que, quando confrontados numa relação de equivalência, mundo e Moda, por um lado, e vestuário, por outro, se tornem termos de uma relação de manifestação: não só o traço indumentário vale pelo traço mundano ou pela asserção de Moda, como também os manifesta. (BARTHES, 1967, p. 51)



A psicanálise é um método de investigação teórica criada por Sigmund Freud no início do século XX em um contexto histórico peculiar: a consolidação da modernidade. Época em que a autonomia e a liberdade do indivíduo eram valorizadas, onde cada um passou a ter a responsabilidade de criar o seu próprio destino e imagem. Constituindo uma teoria da personalidade, a psicanálise busca estudar o comportamento humano. Aspectos como a cultura e a sexualidade são essenciais para o entendimento dos fundamentos psicanalíticos. Utilizando a fala como meio, se propõe a verificar os discursos do Sujeito através das manifestações do Inconsciente (visto como a instância que contém aspectos ocultos ao consciente, mas influenciadores de todo o resto): como os sonhos, os chistes, os esquecimentos e os atos falhos.


Segundo Freud a mulher é um continente negro, de caráter inacabado, necessitando de várias identificações provisórias e parciais que a definam já que não possui um superego estruturado como o masculino. Freud chega a afirmar que a ausência do falo na mulher desvaloriza-a perante si e aos homens. Assim, o homem é colocado como o mestre do desejo da mulher, demanda essa que nenhum homem pode atender por completo. Porém, é preciso se levar em consideração que fatores psicológicos, sociais e ideológicos forçaram a mulher a estabelecer sua estrutura de identidade sobre a aceitação das normas sociais vigentes. Mas afinal qual é a mulher retratada pela psicanálise?



Freud reconhece o superego na menina, mas acha que neste caso a sua formação é bem menos marcante, devido ausência do temor da castração. Assim sendo fatores externos irão agir na formação do superego feminino: a educação, a intimidação, o temor de não ser mais amada, o social. (COELHO, 1996, p. 26)



Freud afirma que o desejo realiza-se ao encontrar sua expressão. O sujeito da teoria lacaniana é o sujeito de desejo, em busca de um significante que o realize. Tal significante não existe “pronto” e não está ao alcance do sujeito por completo, sendo construído então, por deslocamentos e condensações: mecanismos de transferências de energias que utilizamos para chegar perto da posse de nossos desejos.



Para Lacan é no registro do Inconsciente que devemos situar a ação da psicanálise. Inconsciente esse que é autônomo com relação ao Eu. O Eu como sendo detentor de alienação e sede do narcisismo. Esse Eu é dividido e situado em duas categorias: imaginária (é onde ele se relaciona com o amor, ódio e agressividade por exemplo, lugar das identificações e relações duais) e existe o Eu Sujeito do Inconsciente (categoria essa simbólica).



O inconsciente é associado ao simbólico, pois está ligado á linguagem e ao significante. Para Lacan, a função simbólica tem autonomia, pois assim como afirmava Lévi-Strauss: “os símbolos são mais reais que aquilo que simbolizam, o significante precede e determina o significado”


Ou seja, o inconsciente, categoria simbólica e significante, é o que no final das contas regula e manifesta o sujeito em sua essência.
Para Lacan, o Inconsciente representa o Grande Outro, pois antecede a formação do sujeito na medida em que esse Sujeito só se constitui de acordo com as demandas desse grande Outro. Assim, Lacan afirma “o inconsciente é o discurso do outro” e “o desejo é o desejo do Outro”. Essas frases demonstram o pensamento de Lacan de que o Inconsciente é a instância reveladora e de certa maneira, reguladora das ações e discursos do Sujeito.



Vale ressaltar que é exatamente no Simbólico que é registrado o conceito de Desejo, ligado diretamente com a Lei e a Falta, através do desenrolar do Complexo de Castração.



Assim, segundo Lacan, o sujeito sempre deseja ser “o desejo do outro”, relacionando com a moda, Lipovetsky defendia que o que alimenta a moda é justamente essa vontade de olhar e ser olhada, característica forte do comportamento da modernidade.
Segundo Lipovetsky, a moda representa um elemento civilizador, formador de costumes sociais e de sociabilidade, e que através da mudança constante de gostos, hábitos e comportamentos conseguiu remodelar a sociedade inteira à sua imagem, tornando-se hegemônica. De acordo com o pensamento do autor, vivemos em uma sociedade onde a sedução e o efêmero se tornaram os princípios organizadores da vida coletiva moderna.



Carregadas de historicidade, moda e psicanálise são frutos e representações da modernidade, meios diferentes em que a individualidade do sujeito é posta em destaque a fim de se em entender a causa em si. Devo reforçar que com o advento da modernidade, as tradições perdem a importância na formação da identidade do individuo e o que se torna fundamental é a construção de uma imagem pessoal única e aberta. Palco social esse perfeito para a atuação e consolidação da moda:




Antes de ser signo da desrazão vaidosa, a moda testemunha o poder dos homens para mudar e inventar sua maneira de aparecer; é uma das faces do artificialismo moderno, do empreendimento dos homens para se tornarem senhores de sua condição de existência. (LIPOVETSKY, 1989, p.34)


A lógica da moda segue pregando posições que o sujeito deve ou não ter. Dando ao sujeito possibilidades de se construir uma identidade que o defina, identidade essa sempre mutável e suscetível aos valores da moda: sociais, econômicos, tecnológicos, simbólicos e culturais por exemplo.


Atribuindo poderes míticos às roupas, as mulheres costumam projetar a imagem que querem que os outros tenham de si em suas simples escolhas do dia a dia. Acredito que a sedução e a beleza feminina atuam como sinônimos de falo para a mulher. Nesse contexto, a moda seria então uma espécie de ferramenta reguladora do suposto falo feminino.
De acordo com COELHO (1996) a moda funciona como uma mãe sedutora dando à mulher excitação, prazer, completude e aprisionamento. Sendo assim múltiplos e inesgotáveis os caminhos que a mulher pode utilizar o seu vestir como mostruário de seu desenvolvimento, de suas procuras e emoções (p. 46.)

O que o sujeito procura, e não tem como transformar em conhecimento, é – o que o Outro quer de mim? O que sou, para o Outro? Este o sentido que ele vai ter de inventar para sua existência. (KEHL, 1996, p. 32)


Atualmente, esse sujeito está subordinado a uma gama de informações que acaba o distanciando do conhecimento de seus desejos, tornando tal objeto inacessível. Fato esse que provoca angústia.

O discurso de moda influencia e oferece imagens a serem seguidas, exploradas nos desfiles, comerciais e revistas de moda. A moda proporciona um investimento em si através da auto-observação e comparação constante com os modelos e imagens de moda lançados a cada nova estação. Mesmo nos casos em que o sujeito não segue os padrões estipulados pela moda, ele está inconscientemente buscando o objeto perdido (objeto a), ou seja, o olhar do Outro.

É ligada ao humanismo e ao hedonismo, por ser destinada ao culto dos homens e da beleza. Sendo assim um importante meio em que o Narcisismo é de certa forma exercido:



A moda tem ligação com o prazer de ver, mas também com o prazer de ser visto, de exibir-se ao olhar do outro. Se a moda, evidentemente, não cria de alto a baixo o narcisismo, o reproduz de maneira notável, faz dele uma estrutura constitutiva e permanente dos mundanos, encorajando-os a ocupar-se mais de sua representação-apresentação (...) (LIPOVETSKY, 1989, p. 39)




Lacan aponta o sujeito tem uma relação instável com a sua própria Imagem, denunciada em seus estudos em o Estádio do Espelho, fase essa em que a criança não se vê separada do meio ambiente e da mãe. Freud se decepcionou com os seus estudos acerca do mistério chamado mulher, simplesmente por achar ser impossível rotular seu conceito de fato ou atribuir relações entre as mulheres, seus “destinos” e a noção de feminilidade.


Assim, cada vez que um psicanalista, depois de Freud, sustentar que existe algo impossível de saber sobre o desejo de uma mulher, é possível lhe responder, como Sócrates: “indaga-te a ti mesmo”... Pois só o que um homem recusa saber sobre seu próprio desejo é capaz de produzir o efeito de mistério sobre o seu objeto, o desejo de uma mulher. (KEHL, 1996, p.18)

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