quinta-feira, 6 de maio de 2010

Vamor pensar a psicanálise..

Hoje passei o dia lendo livros e bem longe do blog! Não foi por acaso, foi pensado! Sair da ilha sempre é preciso para mim. Além do mais, o fim do semestre tá chegando. Seminários, projetos e a monografia estão batendo na porta!

Mas eu não consegui passar um dia inteirinho sem postar! Tenho que compartilhar um pouco do que li hoje com vocês:



A COELHA ou A roupa como marca materna

Eu não gostava de bonecas. Elas me incomodavam com seu olhar calmo e aspecto de crianças-modelo. Quando descobria uma entre meus presentes, repelia imediatamente a intrusa para longe a fim de me concentrar em brinquedos mais interessantes: uma cabana de índio, um kart de pedais. Meu avô parecia quase tão interessado quanto eu pela máquina, ajustando com cuidado o comprimento dos pedais para as minhas perninhas de criança.

Eu tolerava apenas os bichos de pelúcia para acompanhar minhas noites, sem preferir na verdade nenhum em especial: o lugar já era ocupado por uma coberta suave e amarrotada que eu não deixava que lavassem.

Quanto às bonecas, iam direto para a caixa de brinquedos. Eu só tirava dali em último caso, nas longas tardes de verão. O que elas tinham de mais interessante eram os pequenos tufos dos cabelos, no interior do crânio, depois de arrancada a cabeça. Eu me perguntava, perplexa, se acontecia o mesmo dentro das outras cabeças, das pessoas próximas a mim, que constituíam meu universo familiar. Minha irmão, por exemplo, seis anos mais velha, tinha cabelos compridos que eu invejava, ao passo que eu continuava a usar cabelos curtos como um garotinho. Talvez, no interior do crânio dela, os tufos não fossem maiores que os meus, mas eu não tinha como verificar.

Na época, era como seu tivesse me resignado a uma aparência de "menino que deu errado" - que havia sido inaugurada com grande pompa num sábado de outono.

É uma das minhas primeiras recordações: eu ainda não ia à escola, e meu pai costumava ficar comigo nas manhãs de sábado, na ausência da minha mãe, que ía trabalhar.

Em geral ficávamos tranquilamente em casa, um em frente ao outro, concentrados em nossas respectivas atividades. Eu o vigiava com o canto dos olhos, não plenamente sossegada com aquela presença familiar pouco habital, a preocupação às vezes dando lugar a certa exaltação, primícias de uma aventura que estaria por vir. A aventura começou de repente, no dia em que ele decidiu, sem aviso prévio, comprar algumas roupas para "fazer uma surpresa para a mamãe". Saímos eu e ele.

Não me lembro da loja chique de roupas para criañças aonde fomos naquele dia. Em compensação, guardo na memória a cena da nossa volta para casa.

Mamãe nos espiava pela janela, preocupada com a nossa ausência. Ao entrar pelo quintal, papai apontou para a janela para mim e agitou os braços. Ela nos olhava, incrédula, sem responder aos nossos sinais, e alguma coisa em sua atitude impressionou minha alma de criança.

Alguma coisa nova, nunca vista. Ela, que em geral corria para nos receber de braços abertos, ficou subitamente imóvel, congelada, sem reação. Continuava a nos fitar, suspensa, na expectativa, e todo o Universo junto com ela.. Lá embaixo, sob o fogo gelado daquele olhar, cambaleei à beira do abismo, hesitante, aterrorizada, contida a duras penas pela mão de meu pai.

De repente eu me sentia inexistente, perplexa com sua ausência de movimentos, com sua sideração inesperada, que me remetia à minha ausência em seu olhar e no mundo. Mas o rosto ela, apesar de tão familiar, permanecia fechado, sem a receptividade de seu sorriso.

Esse curtíssimo instante durou uma eternidade. Quando finalmente me reconheceu, vestida com minhas roupas novas, seu grito e alegria mal conseguiu amenizar o meu pavor. O gorrinho de veludo, combinando com o sobretudo e a calça comprida cinzenta, transformava sua querida filha em uma estranha.

O desfecho foi ainda mais espetacular. Ela correu pela escada ao nosso encontro, inundando o espaço sonoro com gritos e palavras que arrebentavam sobre mim como uma onda de afagos e carinhos, apalpadelas, colocando e tirando o gorrinho. "Um garotinho perfeito"! Meu pai parecia satisfeito, eu estava horrorizada.

Alguns anos mais tarde, senti um interesse muito particular pelos coelhos na fazenda da minha tia. Além do meu fascínio por aquele comportamento sexual frenético, tinha grande curiosidade por outra singularidade deles. Haviam-me proibido formalmente de tocar nos filhotes antes que tivessem atingido um determinado tamanho; mas mesmo assim fiz um teste, e observei que, quando retirados da coelheira e matidos por alguns instantes nas mãos, eles viviam, ao voltarem para a gaiola, uma cruel experiência: a mãe aproximava-se deles, desconfiada, e alguns instantes depois eles boiavam, inertes, em sua tigela de água.

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Continua amanhã. Com toda a moral da história. Aguardem!


Boa noite, beijos, fui!


fonte: Dispa-me! O que nossa roupa diz sober nós
Catherine Joubert & Sarah Stern

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