terça-feira, 25 de maio de 2010

PSIQUÊ E AMOR


Era uma vez um rei e uma rainha que tiveram três lindas filhas. A mais linda de todas era Psiquê, a mais moça. Vinha gente de terras distantes apenas para admirar a beleza da jovem, algumas dizendo que ela era Vênus, a deusa do amor, e outras dizendo que Psiquê tinha tomado o lugar de Vênus como a grande deusa do amor. Naturalmente, Vênus ficou enraivecida por toda a atenção que Psiquê - uma mera mortal - roubara dela, então envenenou os corações dos pretendentes de Psiquê, tornando-a inteiramente rejeitada pelos homens. O pai de Psiquê, intrigado pela escassez de pretendentes à mão de sua linda filha, começou a suspeitar de que algo havia dado errado com os deuses.


Em sua busca por uma resposta, o rei consultou um oráculo, através do qual Vênus respondeu, dizendo a ele que sua filha estava destinada a casar-se com um monstro, uma serpente alada que amedrontava até mesmo Júpiter (Zeus em grego). Ela então mandou que o rei vestisse sua filha com roupas de luto e a levasse para o cume de uma montanha distante, onde celebraria seu casamento morte.


Psiquê, acompanhada por uma música fúnebre e pelos pais chocados, e vestida como uma mulher a caminho do túmulo, liderou aquela estranha procissão de casamento até o cume da montanha. Lá, seus pais a deixaram, como lhes fora ordenado.


Sozinha e aterrorizada, Psiquê esperou. De repente, ela foi erguida por um vento doce e carregada por cima da encosta da montanha até pousar num campo perfumado e florido. Um palácio coberto de ouro e pedras preciosas, cheio de maravilhas e tesouros inacreditáveis, ergueu-se diante dela. Pensando que talvez tivesse morrido e aquela fosse a casa de um deus ou de uma deusa, Psiquê entrou e percorreu silenciosamente cômodo por cômodo. Em um quarto suntuoso, mãos invisíveis a banharam e vestiram, e serviram-lhe todo tipo de comidas deliciosas.


Enfeitada com os belos tecidos do palácio, confortada pelos prazeres do ambiente, Psiquê caiu num sono profundo e foi acordada à meia noite por um murmúrio. Sabendo que qualquer coisa poderia acontecer naquele lugar enorme e desabitado, Psiquê temeu por sua vida e por sua castidade, mas a voz que murmurava - uma voz de homem - tranquilizou-a: ele não a forçaria nem a machucaria. O visitante invisível abraçou Psiquê da forma mais sensual e delicada possível. Com aquele abraço, seus desejos sexuais foram ao mesmo tempo despertados e satisfeitos.


No fim daquela noite de paixão, o visitante disse a ele que era o seu marido, mas que ela jamais poderia vê-lo. Todas as suas necessidades seriam satisfeitas por mãos invisíveis no palácio. Desde que ela não tentasse descobrir quem ele era, eles poderiam continuar a desfrutar um do outro todas as noites.


A princípio Psiquê aceitou de bom grado estas condições. Encantada com o esplendor e as riquezas do palácio, ela passava os dias em ocupações agradáveis e as noites com o marido invisível. Mas em pouco tempo Psiquê começou a sentir saudade de seus pais e suas irmãs. Ela desejava vê-los e dizer a eles que não tinha morrido, mas que estava feliz e satisfeita em sua nova casa. Psiquê implorou ao marido que permitisse que ela fosse visitar a família para que eles soubessem de sua segurança e de sua felicidade, e ele relutante concordou. Recomendou que ela se lembrasse das condições do casamento deles: que ela jamais poderia saber nem revelar a identidade dele ou tudo terminaria.


Psiquê voltou para casa e orgulhosamente relatou suas aventuras para a família - sua viagem por cima da encosta da montanha, seu palácio glorioso e seu marido carinhoso. Invejosas de sua sorte, as irmãs de Psiquê repreenderam-na e falaram dos perigos a qie ela se havia exposto. Afinal de contas, elas disseram, seu marido pode ser uma serpente alada, um monstro qualquer, e você se entregou a ele sem conhecer sua verdadeira identidade.


Ao retornar ao palácio, Psiquê tinha um plano que as irmãs haviam urdido para descobrir a verdadeira natureza de seu marido. Ela se preparou para encontrar-se com o marido munida de uma vela e uma faca. Depois que fizeram amor e enquanto ele dormia, acendeu a vela e ergueu-se sobre o corpo dele. Diante dela apareceu o deus Amor - o filho de Vênus - em toda a sua beleza. Ofuscada por sua glória, Psiquê pulou para trás e derramou cera quente da vela no peito nu dele. Acordando assustado, Amor amaldiçoou-a e fugiu. Do alto de um cipreste, ele repreendeu a mulher por sua desconsideração e saiu voando. Sua identidade fora revelada para uma mortal, e ele teve que voltar para sua mãe; nunca mais poderia misturar-se com uma mortal.


O remorso de Psiquê foi profundo e ela vagou pela terra à procura de seu amado marido. Cansada e sem esperança, ela chegou a um templo de Vênus e entrou, suplicando à grande Deusa que a ajudasse naquele problema de amor. Mesmo enraivecida pela aliança de Psiquê com Amor, Vênus determinou que a nora cumprisse algumas tarefas. Escolheu trabalhos que jamais poderiam ser realizados por um mortal, e prometeu que Psiquê se reencontraria com Amor caso fosse bem sucedida.



Cheia de fé em seus sentimentos por Amor, Psiquê iniciou sua heróica aventura. A cada passo do caminho, forças do mundo natural vinham apoiar tanto a sua coragem quanto o seu amor. Sua tarefa final, e mais difícil, era resgatar uma caixa de "beleza" de Prosérpina no mundo subterrâneo para que Vênus, que estava envelhecendo, pudesse recuperar sua aparência - desgastada por cuidar do filho doente.


Ajudada por uma torre de pedra falante, Psiquê recebeu intruções acerca dos passos exatos para entrar e sair do mundo subterrâneo. Retornando depois de cumprir sua última tarefa, Psiquê decidiu tolamente usar em proveito próprio um pouco da beleza de Prosérpina. Mas Prosérpina tinha colocado a morte - e não a beleza - na caixa que seria levada para Vênus. Ao abrir a caixa, Psiquê caiu num sono mortal.


Quando descobriu qual tinha sido o destino da mulher, Amor implorou à mãe que permitisse que Psiquê fosse transformada em uma deusa imortal. Por fim, Vênus cedeu aos desejos do filho. Amor tirou a mulher de seu sono mortal e a levou para o céu para ser sua parceira eterna.

(Asno de Ouro de Ovídio - Lúcio Apuleio, século II)

Moral da história: Prazer x poder, inveja, sacrifício, competição feminina, casamento-morte, desafio à auto-determinação no desejo sexual feminino.

Qual a sua interpretação?

Séculos e séculos de arquétipos..

Continuo em busca dos significados do desejo e da soberania feminina...

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