sexta-feira, 7 de maio de 2010

O sintoma


Concluindo o caso:

A COELHA ou A roupa como marca materna



A roupa assume aqui dois papéis distintos: oor um lado, participa da determinação da identidade sexual, por outro, permite o reconhecimento da criança pelos pais. Sob esse aspecto, a história da coelha que não reconhece mais o filhote é um eco inquietante do caso da mãe que não reconhece sua filha.


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Mas, para além da materialidade da roupa, é o que ela traduz dos desejos parentais que a criança percebe. Ela é vestida passivamente pelos pais durante os primeiros anos de sua vida. Suas roupas são uma oportunidade para eles exprimirem seus desejos e projeções a seu respeito, em particular no que se refere à sua identidade sexual. Quantos garotinhos com longos cabelos cacheados e blusinhas rendadas refletiram, aos olhos fascinados de seus pais, a menininha que poderiam ter sido? Quantas garotinhas se conformaram à imagem do "menino que deu errado"? Mas errado para quem? Para a mãe, cujo desejo volta, à revelia dela, para se inscrever no corpo da criança? Para o pai, que deseja em seu foro íntimo o prolongamento da linhagem masculina?
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Em certa medida, a roupa oferece aos pais a ilusão de descobrir o filho ideal que eles têm em mente. Esse travestimento satisfaz parcialmente o pai, de uma forma inconsciente, a verdadeira identidade de sua filha. Em geral, o adulto consegue estabelecer uma distância entre a satisfação de seu desejo e a realidade - mas e quanto à criança? Esta é, desde o início da vida, joguete de uma encruzilhada de desejos e projeções identificatória de seus pais. A roupa desempenha um papel, pois pode revelar em parte essas tramas inconscientes que se passam ao redor da criança.

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Assim, a suntuosidade de um traje exprime para ela o orgulho de seus pais, um ideal de êxito, como se ela devesse dar conta de promessas que eles próprios talvez não tenham sido capazes de cumprir.

A orientação sexual de sua roupa a informa sobre o sexo do filho que seu pai ou sua mão desejavam. Essas diversas informações são trocadas inconscientemente, mas pouco a pouco vão constituindo em torno da criança um tecido de desejos parentais, de modelos identificatórios nos quais ela terá de se apoiar para construir suas próprias referências.

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Porém, em certos casos patológicos, quanto a auto-confiança da criança é muito frágil, ou a pressão do desejo exterior muito forte e pouco diversificada, o leque de possibilidades da criança se reduz, podendo acarretar graves distúrbios identitários.

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Mãe e criança formam então um par que as isola do resto do mundo.

A intervenção de um terceiro termo nesse universo, por exemplo através da escolha da roupa, pode verificar-se problemática: se o laço entre a mãe e a criança é frágile depende de suportes externos como a roupa ou os cuidados, a mãe corre o risco de se sentir confiscada e, até mesmo, em um caso extremo, de não mais reconhecer seu filho como tal.

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A roupa é então a marca da mãe sobre a criança, o signo de seu usufruto. Qualquer afastamento é vivido como impossível, perigoso, na relação louca com sua filha.

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O que se dá nesse curto instante é caso de vida ou morte: será que ela vai reconhecer sua filhinha ou rejeitá-la, destinando-a a uma morte simbólica como o coelhinho da história?

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Na maioria das vezes, o pai intervém de uma forma um pouco diferente entre a mãe e a criança. Ele se opõe à relação exclusiva delas ao designar a mãe como sua companhia no âmago do casal parental. Ao desvelar a mulher por trás da mãe, ele a põe fora do alcance da criança, introduzindo a distância benéfica da triangulação da relação. Ele marca o interdito e envolve a criança em uma relação estruturante com a lei.

Talvez esse homem seja feito à imagem dos pais modernos, pouco propensos, dizem, a proibir e frustrar os filhos, com medo de perder seu amor - perda que abalaria seu frágil narcisismo - , e concorrendo então com a mãe nos cuidados dispensados à criança.



Demais, não?


fonte: Dispa-me! O que nossa roupa diz sober nós
Catherine Joubert & Sarah Stern

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