terça-feira, 30 de junho de 2009

CORPO E MODA – OS DISCURSOS DO CORPO: DAS SUAS SUBJETIVIDADES À EXAUSTÃO.

RESUMO
Nome: Renata Santiago Freire
Instituição: Universidade Federal do Ceará
Título: Corpo e Moda – Os discursos do corpo: das suas subjetividades à exaustão.
Referência: Trabalho apresentado ao Curso de Estilismo e Moda, como exigência parcial para a obtenção de nota da disciplina de Corpo e Moda, sob a
orientação de conteúdo da Professora Dolores Mota.


Pretendo realizar uma discussão acerca dos conceitos que definem a noção do corpo e seus discursos e significados de verdade a que o corpo sempre é submetido ao longo da história. Analisar a sua importância e influência na construção da subjetividade do indivíduo e principalmente, refletir sobre o papel da moda nas constantes interferências a que o corpo moderno anda sofrendo por parte do seu “dono”. Seu significado para a construção e vivência do eu, para finalmente, apontar soluções para o processo de exaustão do corpo. Corpo esse que fala; que não faz apenas parte de nós e sim é o próprio ser materializado; que atualmente necessita das novidades de moda para se afirmar e que sofre ao tentar atingir padrões estéticos inatingíveis.









1. O QUE É O CORPO?

"todos nós temos poder no corpo". E o poder - pelo menos em certa medida - transita ou transuma por nosso corpo. "
(Michel Foucault)


Nosso corpo "é" a nossa base, nossa casca, nosso sistema constante, estruturado, é bombardeado e também bombardeia signos a todo instante. É ou pelo menos deveria ser o primeiro veículo de comunicação e expressão utilizado pelo ser humano para a produção, reflexão e análise do conhecimento. Com ele vivenciamos os sentidos.
Estrutura complexa, sistema organizado, biologicamente e socialmente. Cada sociedade tem seu próprio corpo; com suas características peculiares. Atualmente o corpo é o ator principal dessa modernidade tão cheia de símbolos, onde os limites do real, do biológico e do imaginário muitas vezes se confundem.
Nossa relação com o mundo é em sua essência uma relação pelo corpo. Embora, atualmente, o consumo nervoso e desenfreado de novidades em forma de objetos tenha restringido as atividades físicas e sensoriais do corpo. Acabamos deixando o sistema limitar as nossas próprias iniciativas sobre o mundo real.
Vale ressaltar que no séc. XXI todos os movimentos sociais de representação passam pelo corpo; e este acaba sofrendo alguns efeitos. Diante de nós existem inúmeras possibilidades para se reinventar o corpo, mas será que há realmente necessidade para tanta mudança? Até que ponto passamos dos limites da nossa própria sanidade mental para atingirmos padrões estipulados?



2. UM BREVE HISTÓRICO DOS DISCURSOS CORPORAIS

Nosso corpo é um complexo artefato social e cada sociedade privilegia certas regras e maneiras de gerir o corpo. Da Grécia que exaltava e dava ênfase à beleza do corpo à Idade Média com seus corpos curvados e culpados; o corpo sempre foi produtor de conhecimento, objeto da razão e do saber. Na era das instituições, observamos corpos disciplinados, moldados; um verdadeiro espaço para a construção de corpos seguindo “normas”. Na atual sociedade de consumo, o corpo é hiper valorizado, mas paradoxalmente se transformou em mercadoria. É fabricado pela sociedade, pela mídia, pela moda. É governado pela lógica da afirmação do novo.
O mundo contemporâneo acrescentou diversas atividades ao corpo. Ele virou o principal objeto de discussão e manipulação pelos meios de comunicação que lhe atribui finalidades e até “obrigações” distintas: estéticas, de saúde corporal, artísticas. Mostrado em diferentes aspectos, o corpo é um suporte não só para a utilização de tatuagens, piercings, body art... como também para infinitos objetos lançados pela sociedade de consumo. Na moda é a base para emissão de mensagens; que criou a noção da existência de um corpo perfeito para desfilar a roupa; corpo esse que deve ter dimensões específicas e padrões a serem seguidos. É a lei do estilo que opõe constantemente: moda x padrão x corpo.
Há de se considerar, portanto, dois aspectos quando tratamos da questão da moda: a moda do corpo (aqui o corpo é o ator principal; onde ele é estimulado e exaltado) e a moda para o corpo (o corpo visto apenas como coadjuvante; suporte para o vestuário).
Vale ressaltar que nossos corpos são de certa forma teatralizados pela cultura moda, os enfeitamos a fim de ganharmos status social, identidade simbólica. Mais do que nunca ele se torna um forte veículo de comunicação. Muitas vezes estereotipado, o corpo é usado para rotular o seu “dono”.
O dualismo contemporâneo opõe diretamente o homem e seu corpo. Ele é visto apenas como um suporte, objeto sem valor simbólico, separado do próprio eu e desprovido de consciência. Freud escreveu em sua obra Mal estar da civilização:
“Por assim dizer, o homem se tornou uma espécie de deus profético, deus decerto admirável quando reveste seus órgãos auxiliares, mas estes não cresceram como ele e muitas vezes o cansam bastante.”

3. MOTIVOS PSICOLÓGICOS - INFLUÊNCIA DA NOÇÃO DO CORPO NA NOÇÃO DE SI

Cada ser humano é sem sombra de dúvida, muito mais do que uma mera imagem refletida no espelho. Possui identidade criada ao longo do tempo e auto-estima; e ambas estão vinculadas à consciência corporal. A importância do corpo é ressaltada e valorizada na maioria das teorias que tratam do desenvolvimento humano. Como exemplo, pode-se referir a Psicanálise de Freud (1905) para quem o ego é acima de tudo corporal.
O nosso corpo consciente tem a capacidade de captar sensações advindas tanto do inconsciente quanto do mundo externo. Essas duas “demandas” diferentes são responsáveis pela construção de nosso auto-conceito. O indivíduo moderno está em permanente confronto com essas duas forças; a interna acarreta conflitos e insatisfações consigo mesmo (através do confronto entre o eu real e o ideal), já a externa trás a noção da realidade, cada vez mais mutante e abarrotada de perfis tirânicos a seguir.
A imagem que tenho de mim e sua proximidade ou distância com as idéias difundidas pela mídia afetam profundamente a minha subjetividade. Alteramos o nosso corpo a fim de satisfazer os nossos desejos inconscientes, anseios e medo da fragilidade da carne, da finitude e da efemeridade da vida.
O fato é que a valorização exagerada da imagem pode conduzir ao narcisismo do corpo representado pela valorização exagerada do que visualizamos no espelho físico. A importância do bem estar, e a aceitação incondicional das diferenças, desde a aparência física às características da personalidade são deixados literalmente em segundo plano.
Ainda bem jovens, somos fortemente influenciados a consumir cada vez mais e mais, a buscar o corpo perfeito, a seguir dietas rigorosas, com uso de medicamentos e até correções cirúrgicas caso seja “necessário”. Corpos obesos são rejeitados e vistos com espanto, pois não estão de acordo com a norma, com os modelos ditados por essa sociedade marcada pelo controle e alimentada pelo consumo.

4. CORPO, MODA E PSICANÁLISE

“Quero romper com meu corpo , quero
enfrentá-lo, acusá-lo por abolir minha
essência, mas ele sequer me escuta e
vai pelo rumo oposto.”
Carlos Drummont de Andrade

Como foi dito anteriormente essa máquina maravilhosa que é o corpo: fala; e ao ser tão limitado em sua existência simbólica e real, o corpo volta à atenção dos indivíduos e fala na forma de sintoma. Segundo as idéias psicanalíticas, nosso corpo é pulsional, ou seja, busca tanto satisfazer suas necessidades fisiológicas como obter prazer através do toque, do olhar e do desejo do Outro. Temos um corpo simbólico, pertencente à linguagem, e entender esse corpo é fundamental para a constituição da subjetividade.
Segundo a psicanálise, as pessoas investem em si seguindo os padrões da moda na busca pelo investimento do Outro. É fato que as insatisfações psicológicas e emocionais atuam como uma estratégia para as manipulações corporais. É através das manipulações corporais que buscamos provocar no Outro os mais diversos tipos de reações. Desejamos, avidamente, através da nossa pulsão escópica (vontade, desejo de olhar e ser visto), um olhar desejante (olhar esse que certifica nossa existência) que "funciona" até como um prolongamento do tato. E é aí que vem a moda, auxiliando o sujeito na realização de suas manipulações. Com o fenômeno da moda, o sujeito estará sempre fazendo um retorno do Édipo ao Narcisismo; do social ao íntimo. É o imaginário atual, o prazer em exibir suas qualidades imaginárias e suas fotos com efeitos em sites diversos: "Sou visto, logo existo"!
Não é à toa a existência desse culto exarcebado ao corpo. Queremos tanto agradar esse Outro que para isso, devemos estar sempre bem cuidados. Porque esse olhar que certifica, que glorifica nossa existência, também rejeita e critica. E é aí que nos apoderamos dos padrões ditatoriais e tirânicos da moda. Fantasiamos que ao segui-los seremos sempre aceitos, e principalmente, teremos o olhar que foi perdido na infância, e assim o sujeito preserva o seu narcisismo.
Mais fundo ainda, percebemos a idéia de que transformamos o corpo em um rascunho, onde existe um objetivo a ser conquistado: o da transformação corporal.
Kehl (2004) diz
“muitas pessoas acabam deslocando seus conflitos através da idéia errônea de que se transformarem seus corpos com piercings, tatuagens, plásticas, mudanças químicas no metabolismo, transformações dermatológicas, odontológicas e adornos, suas angústias estariam resolvidas , os impedindo de terem a percepção de que estão, na realidade aprisionando-se cada vez mais. Enganam-se ao ignorar seu próprio inconsciente, dando exclusivo crédito ao corpo, como se este lhes fosse suficiente.”
As diversas modificações corporais que hoje podem ser feitas visam buscar a apropriação do EU IDEAL que se imagina. A frustração vem quando nos damos conta que elas nunca vão ser concluídas, já que novas adaptações sempre acabam surgindo. A cada mudança na moda, há incorporação e abandono de objetos. No nosso imaginário habita a imposição: "SOU O QUE MOSTRO"!
Pensamos que ao mudar algo em nosso corpo, mudamos também a nossa identidade. Simplesmente o EU é definido apenas pelo corpo biológico.

5. A MODA, A MÍDIA, O PRAZER DA NOVIDADE.

A moda é um fenômeno peculiar ao seres assinalados pela linguagem, representa as atitudes que o sujeito adota, seja na escolha de uma peça do vestuário, na realização de cirurgias, tatuagens ou aplicação de piercings. A moda cria uma identidade mutável, simplesmente prega posições que o sujeito deve ou não ter.
“Primeiro grande dispositivo a produzir social e regularmente a personalidade aparente, a moda estetizou e individualizou a vaidade humana, conseguiu fazer do superficial um instrumento de salvação, uma finalidade da existência.” (LIPOVETSKY)
São evidentes as contradições da modernidade: diante de tanta tecnologia, do discurso de liberdade e inovação presente em tamanha profusão de objetos; podemos ter a falsa sensação de que estamos pertos demais, de que temos o mundo “em nossas mãos”, mas o sentimento real e verdadeiro é que estamos longe demais uns dos outros. As relações interpessoais se tornaram enfraquecidas no mundo contemporâneo.
Vivemos na era de imitações impossíveis de serem atingidas. Era dos excessos: viva a nossa sociedade de consumo! É o que proclama tanta propaganda. É trágico; mas até o nosso querido corpo virou uma mercadoria, desprovida de identidade, de consciência...
Nossa cultura é em parte subordinada por uma complexa rede de multinacionais que desrespeitam e nem se preocupam com a reflexão ou produção autêntica de idéias, perspectivas. Com papel principal na criação e da história do corpo perfeito, a mídia explora e expande a idéia do “culto ao corpo” através de suas propagandas fantasiosas. A supremacia dos veículos de comunicação de massa na formação de padrões entra até no campo da saúde: um estereótipo de “corpo saudável” (mas cheio de exigências) torna-se o maior e mais desejado objeto de consumo. Todos querem ser admirados, todos querem possuir o “corpo da moda”; todos querem ser “aceitos” por esse sistema tão cruel.
O mito da saúde perfeita é retratado mitologicamente por um “Adão sem Eva”, sem sexualidade, sem morte, um corpo perfeito, sem pecado, sem carne: “um corpo livre do próprio corpo”.
É engraçado e triste observar que não precisamos mais da política, ela é sistematicamente substituída pela publicidade, que trabalha arduamente para simplificar, descomplicar e alienar.
“A sociedade de consumo é programação do cotidiano: ela manipula e quadricula racionalmente a vida individual e social em todos os seus interstícios; tudo se torna artifício e ilusão a serviço do lucro capitalista e das classes dominantes.” (LIPOVETSKY)
O movimento de estetização geral, característico da pós-modernidade, é uma das estratégias econômicas de apropriação; causador de um processo de alienação já que nada mais é do que uma máscara sobre os jogos do poder social para manter a distinção das classes através das aparências de imagens superficiais.
O corpo midiático é uma verdadeira metamorfose, um campo aberto de possibilidades. Recriar suas formas é visto como um ato de criatividade e inovação. Essa falsa idéia de atividade perante o corpo é apenas um imaginário fantástico embutido por trás das normas estipuladas pela sociedade.
O grande fluxo de redes, imagens, o enorme bombardeamento de informações, e padrões ditos normais são lançados e destinados a controlar o cidadão consumidor pela produção incessante de serviços, novidades e desejos.
A verdade é que a mídia eletrônica educa o gosto do público, e infelizmente, essa educação se faz não pelo criador e pela ruptura, mas pela eterna redundância de se dizer sempre mais e mais a mesma idéia.

6. O CORPO COMO OBJETO

“Antes de ser signo da desrazão vaidosa, a moda testemunha o poder dos homens para mudar e inventar sua maneira de aparecer; é uma das faces do artificialismo moderno, do empreendimento dos homens para se tornarem senhores de sua condição de existência.” (LIPOVETSKY)
Vivemos em uma sociedade em que o consumo foi transformado em uma válvula de escape poderosa; em uma fuga para conflitos e enfrentamentos necessários, tornou-se um refúgio acolhedor para o indivíduo moderno. O seu poder simbólico é alimentado pela lógica espetacular e veloz do sistema moda. O consumo atualmente é um verdadeiro sistema sociocultural que elabora “perfis de sujeito”, assim como depois os destrói. Sua dinâmica se dá pela apropriação e uso de produtos, porém não se trata mais da escolha por gosto ou opção de simples objetos; observamos a atribuição de sentimentos e sensações a bens materiais. É nesse contexto que o corpo adquire caracterizações de uma simples mercadoria. E é nessa mercadoria corporal que alimentamos o desejo e a sensação de que a podemos modificar, transformar, alterar sem nenhum encargo, ônus ou peso na consciência. O corpo é visto como algo separado do próprio eu. Como diz Baudrillard:
“No mundo contemporâneo e suas técnicas, o real e o imaginário se indiferenciam, constituindo tal fato a morte do sentido. Nossa identidade é sentida como algo móvel, sem contexto geral, é influenciada por novas formas culturais apresentadas.”
Como posso me expressar originalmente? Diante da velocidade e explosão de informação e novidade, este questionamento inconsciente é recorrente. Assim, toda a ansiedade é transferida para o corpo; tratado como um objeto que está à minha plena disposição. O corpo se torna desprovido de consciência, um alvo fácil para a manipulação consumista e desenfreada.
Como um rascunho a ser corrigido sempre que preciso, algumas correntes de tecnociência defendem a reconstrução permanente e até a eliminação do corpo. O corpo é dissociado do homem, é tratado como uma máquina perfeita, com peças e partes isoladas. E o imaginário técnico ocidental visa justamente consertar essa pobre máquina; através de intervenções cirúrgicas.
O corpo é transformado literalmente numa possibilidade biotecnológica do si. Com a utilização de cirurgias plásticas ou de biotecnologias genéticas operamos em nosso corpo modificações provisórias e definitivas.
Mudando o corpo, acabamos interrompendo nossa própria temporalidade natural biológica seja retardando o envelhecimento ou alterando as imperfeições do tempo com uma renovação do próprio espaço corporal.

7. SEGUIR PADRÕES: UM PROCESSO EXAUSTIVO E IMPOSSÍVEL

Por que precisamos dopar, mascarar e até esquecer o nosso corpo em prol de regras que ultrapassam os limites biológicos e até sociais? Instituições poderosas tratam o corpo apenas como um instrumento que tem a finalidade de ser útil, dócil, produtivo e acima de tudo, dar imensos lucros. Observamos que a antiga luta das classes foi substituída pela luta dos espelhos.
Seja nos esportes onde o corpo é trabalhado incessantemente até o seu limite, ou nos trabalhos com a aparência onde a busca pela magreza é estimulada, atualmente o corpo é levado a viver em extremos. Que corpo é esse? E mais importante ainda, que conseqüências todo esse processo acarreta para a construção da nossa subjetividade?
Observamos que atualmente as técnicas para se atingir o corpo perfeito são inúmeras e diversas, porém todas levam o corpo à exaustão.





8. CONSIDERAÇÕES FINAIS – SOLUÇÕES PARA RESISTIR

Talvez um dos grandes desafios de nossos tempos seja o de compreender qual é o lugar do corpo para o sujeito e para a sociedade. Para isso, devemos questionar a necessidade humana de se recorrer constantemente a técnicas e utensílios para modificar, transformar, renovar e até mutilar a aparência física.
Temos de sublimar, temos de nos reinventar, temos de resistir, temos de re-existir dentro de um contexto que estipula o que devemos ou não ser e fazer. Não podemos nos tornar sujeitos alienados em nossa própria imagem.
Os corpos e as subjetividades tornaram-se formas abertas em permanente ressemantização; tal fato gera um enorme conflito causado pelo distanciamento (consequência das tecnologias) do homem com o objeto, com o meio.
Até onde pode ir esse corpo tão castigado? Ele pode nos dar tudo? Ou será que tem um limite para tamanha apropriação e exploração?
Devo ressaltar que o corpo, sendo um espaço social que absorve e reflete a cultura a que está exposto é atualmente ligado ao slogan “USE SEU CORPO; ELE PODE DAR TUDO O QUE VOCÊ PRECISA”. Tal absurdo é o que parece habitar o imaginário do indivíduo contemporâneo.
Tantos transtornos alimentares como a anorexia, bulimia, onde as pessoas simplesmente se recusam a alimentar sua própria matéria. Transtornos emocionais que causam a obesidade, levando milhares de pessoas a fazerem cirurgias de redução do próprio estômago; o abuso das cirurgias plásticas por parte daqueles que buscam alcançar (a todo custo) perfeição estética; aos exageros nos esportes que levam o corpo do atleta à completa exaustão acarretando danos para toda a vida.
Isso tudo não seria esse corpo social gritando?
Tendo como consciência todas as faces do processo de moda que a mídia nos expõe e os padrões tirânicos ditados pela lógica do consumo, devemos e podemos encontrar saídas saudáveis para a vida do corpo.
Aproveitar o caráter libertário da moda é uma delas. Não ver o corpo como algo externo, que podemos mexer a nosso bel prazer e sim, assumi-lo e aceitá-lo como uma parte integrante do eu, como o próprio eu.
Diante desse falatório constante e exarcebado que estipula regras e padrões impossíveis de serem atingidos, gerando frustração e insatisfação sem fim, é preciso criar uma moda para o corpo, especialmente para ele.
É necessário ver a moda como uma criação artística que vise soluções para o conforto e boa exposição perante si e os outros. Não apenas exibição sem finalidade.
Danos não só ao corpo, mas a todo o processo criativo é trazido no pacote de características da modernidade. Era dos excessos, era da imitação!
Como estilistas, somos profissionais também responsáveis pela proteção do corpo e mais ainda, pela difusão da cultura do corpo e do seu papel ao longo da história. Como pensadores da dinâmica da moda, devemos buscar responder diariamente ao seguinte questionamento:
Qual a função da moda?
Qual a relação da moda com o corpo? É o corpo que veste a roupa ou a roupa que veste o corpo?
Estamos trocando os papéis?
Estamos sendo engolidos por uma imensa “camisa de força” que desgasta o processo criativo, limita a nossa existência como seres humanos e o pior, acarreta conseqüências diretas à nossa saúde tanto física quanto mental.
Devemos respeitar e amar esse corpo que tanto nos protege e nos acolhe, preservando a sua essência, temporalidade e naturalidade. A conclusão é que não possuímos o nosso corpo e sim pertencemos completamente a ele.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASTILHO, Kathia e GALVÃO, Diana. A moda do corpo e o corpo da moda. São Paulo: Ed. Esfera, 2002.
CRANE, Diana – A moda e seu papel social: classe, gênero e identidade das roupas/ São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2006.
FREUD,S (1905). Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Obras Completas. Rio de Janeiro: IMAGO,vol.VIII.
GARDIN, Carlos – O corpo mídia: modos e moda / Corpo e moda: por uma compreensão do contemporâneo/ Ana Claudia de Oliveira, Kathia Castilho, organizadoras. Estação das Letras e Cores Editora, 2008.
LE BRETON. David. A sociologia do corpo. Petrópolis: Vozes, 2006.
LIPOVETSKY, Gilles – O Império do Efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas / Tradução: Maria Lucia Machado – São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
MAUSS, Marcel – As técnicas corporais / Disponibilizado por Leandro Moura dos Reis,1934.
VILLAÇA, Nízia – A edição do corpo: tecnologia, artes e moda / Barueri-SP: Estação das Letras Editora, 2007.
Filme: Frida
Filme: Gattaca
Filme: Estamira
http://www.espacoacademico.com.br/057/57freitas.htm
http://www.fashionbubbles.com/2008/o-corpo-na-moda-a-perspectiva-teorica-da-relacao-entre-moda-e-corporeidade/
http://www.iararevista.sp.senac.br/ed2/pt/contcomp/auto-saude.html

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