segunda-feira, 11 de maio de 2009

Moda e Psicanálise


Cabas(1980 apud Levin, 1995, p.51):



Falar do corpo significa, então, falar da existência de dois âmbitos simultâneos, de duas realidades que se superpõem, sendo que a primeira (a anatômica) é limite de possibilidade e de significação da segunda (a erógena), e esta, por sua vez, é a que outorga a dimensão de sentido da primeira. Por isso é que o corpo é a palavra, mas também letra, é fonologia, mas também tatuagem, desejo, mas também pulsão e fonte.




Nosso desejo é o de fazer o outro nos desejar, e
nossa satisfação consiste em alcançar, na
realidade ou na imaginação, o que antecipamos
de forma imaginária.

Freire Costa.



É através das manipulações corporais que buscamos provocar nesse Outro os mais diversos
tipos de reações. Desejamos, avidamente, através da nossa pulsão escópica, esse olhar desejante que "funciona" até como um prolongamento do tato. E é aí que vem a moda, auxiliando o sujeito na realização de suas manipulações. Com o fenômeno da moda:o sujeito estará sempre fazendo um retorno do Édipo ao Narcisismo; do social ao íntimo. É o imaginário atual, o prazer em exibir suas qualidades imaginárias e suas fotos de efeitos em sites diversos:

"Sou visto, logo existo"

Não é a toa a existência desse culto exarcebado ao corpo. Queremos tanto agradar esse Outro que para isso, devemos estar sempre bem cuidados. Porque esse olhar que certifica, que glorifica nossa existência, também rejeita e critica. E é aí que nos apoderamos dos padrões ditatoriais e tirânicos da moda. Fantasiamos que ao segui-los seremos sempre aceitos, e principalmente, teremos o olhar que foi perdido na infância, e assim o sujeito preserva o seu narcisismo.

Mais fundo ainda, percebemos a idéia de que transformamos o corpo em um rascunho, onde existe um objetivo a ser conquistado: o da transformação corporal.

Kehl (2004) diz

muitas pessoas acabam deslocando seus conflitos através da idéia errônea de que se transformarem seus corpos com piercings, tatuagens, plásticas, mudanças químicas no metabolismo, transformações dermatológicas, odontológicas e adornos, suas angústias estariam resolvidas , os impedindo de terem a percepção de que estão, na realidade aprisionando-se cada vez mais. Enganam-se ao ignorar seu próprio inconsciente, dando exclusivo crédito ao corpo, como se este lhes fosse suficiente.

As diversas modificações corporais que hoje podem ser feitas visam buscar a apropriação do EU IDEAL que se imagina. A frustração vem quando nos damos conta que elas nunca vão ser concluídas, já que novas adaptações sempre acabam surgindo. A cada mudança na moda, há incorporação e abandono de objetos.

"SOU O QUE MOSTRO"

Pensamos que ao mudar algo em nosso corpo, mudamos também a nossa identidade. Simplesmente o EU é definido apenas pelo corpo biológico.

Chemama (1995, p. 48)

A psicanálise leva a pôr em destaque não uma subjetividade, mas um assujeitamento, o qual entendemos como aquilo que pode determinar um sujeito, produzi-lo, causá-lo: sua história e, mais precisamente, a história de um dizer, aquilo que, depois de seu nascimento, não cessa de acompanhá-lo e de orientar sua vida, em um "tu és isso" sem escapatória.

Quero romper com meu corpo , quero

enfrentá-lo, acusá-lo por abolir minha

essência, mas ele sequer me escuta e

vai pelo rumo oposto.

Carlos Drummont de Andrade

Sim! O que está na moda: É O CORPO!

Por Renata Santiago



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