segunda-feira, 20 de abril de 2009

o amor cortês

Assim como os homens devem agradar às mulheres pelas boas maneiras e pelo lirismo, devem do mesmo modo sofisticar sua aparência, estudar seu vestuário como estudam a sua linguagem: a preciosidade do traje é a extensão e o duplo da estilização do amor.
A moda e sua exigência de artifícios não podem ser separadas dessa nova imagem da feminilidade, dessa estratégia de sedução pelos signos estéticos.
Correlativamente, a superestima da mulher, os louvores de sua beleza contribuíram para ampliar e legitimar na alta sociedade laica o gosto feminino pela toalete e pelos ornamentos, gosto presente desde a mais alta Antiguidade.

O amor cortês está duplamente implicado na gênese da moda.
Por um lado, considerando que o verdadeiro amor deveria ser procurado fora do casamento, que o amor puro era extraconjugal, o amor cortês lançou o descrédito sobre a instituição matrimonial, legitimou a escolha livre do amante pela dama e favoreceu assim a autonomia do sentimento. O amor contribuíu nesse sentido para o processo de individualização dos seres, para a promoção do indivíduo mundano relativamente livre em seus gestos, afastado da norma antiga.

Vimos mais acima o elo íntimo que une a moda e a consagração mundana da individualidade. Por outro lado, mais diretamente, o amor cortês produziu uma nova relação entre os sexos, instalou um novo dispositivo de sedução galante que não atuou pouco no processo de estetização das aparências que é a moda.


Gilles Lipovetsky - O Império do Efêmero - A estética da sedução (pág 65)

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